Daniela e Henrique com os pais do coração, Andréa e Rafael: muitos quilômetros rodados até o encontro
Nove anos de casados, uma vida confortável, estabilidade profissional. O bancário Rafael Peixoto, 34 anos, e a servidora pública Andréa Collaço, 28, ambos cariocas, tinham tudo que um jovem casal sonha. Um dia, pensaram em filhos. Era hora de eles chegarem. E veio a dúvida: biológico ou adotar? Andréa sempre quis adotar uma criança, antes mesmo de se casar. Rafael gostava muito da ideia. Mas decidiram: teriam filhos biológicos e, ainda assim, adotariam.
Exames indicaram que Rafael tinha problema de fertilidade. E logo, antes mesmo que tentassem inseminação artificial, desistiram do tratamento, da espera angustiante e de qualquer futura frustração. E resolveram que adotariam. Em 2007, entraram na fila da adoção na Vara da Infância e da Juventude (VIJ). E, ao mesmo tempo, passaram a visitar sites que tratavam do assunto. Participaram de comunidade no Orkut. E começaram a frequentar as reuniões do Projeto Aconchego — grupo de apoio à adoção e ao apadrinhamento afetivo do DF., parceiro da VIJ.
Ali, no Aconchego, descobriram que adotar é amar igualzinho. E, pela primeira vez, ouviram falar em adoção tardia — crianças a partir de 6 anos, aquelas que ninguém mais quer e lotam os abrigos do país. O perfil (tipo de criança que desejavam) preenchido no setor de adoção da VIJ estava sem restrições. “Não impusemos sexo nem cor. Só queríamos ser pai e mãe”, lembra Andréa.
Um ano se passou e nada de retorno do processo. Os futuros pais voltaram à VIJ e aumentaram o limite de idade do filho desejado. Por meio dos sites que frequentavam, o casal da Asa Norte descobriu que em Londrina (PR) havia dois irmãos — uma menina de 6 anos e um menino de 7 — prontos para a adoção. E viram uma foto. Mais nada.
Imediatamente, a VIJ fez contato com o juizado de Londrina. O casal passou para o Cadastro Nacional de Adoção. Andréa pediu licença- maternidade no trabalho. Rafael entrou em férias. E dirigiram até o Paraná. Só tinham uma certeza: buscariam seus filhos. Conheceram Daniela (apenas Dani, hoje com 8 anos) e Henrique, 9 (que era Edilson). O menino perguntou aos pais se podia trocar de nome. E assim se fez. Escolheu Henrique, com orgulho de quem passou a ser ouvido.
Um dia, Daniela, mais tímida, chamou Andréa de mãe. E Rafael, de pai. Henrique sempre os chamou assim. Tudo foi uma conquista, aos poucos. “Temos um projeto de vida juntos”, diz o pai. A mãe tem certeza: “Não quero mais filhos, já tenho dois”. E não suporta quando alguém lhe diz, ao ver a diferença física entre o casal e os filhos: “Que coisa linda que vocês fizeram””. E responde: “Isso não é lindo, não é caridade. Filho é filho. E são eles, na verdade, que nos escolhem”.
Juliano e César
“Pai e mãe é aprendizado”
"Mãe e pai é aprendizado. Estamos aprendendo tudo de novo", diz Márcia
As três filhas, então com 15, 19 e 21 anos, estavam bem-encaminhadas. Não havia motivo para mais filhos. Nem espaço naquela casa simples, na Vila Buritis 4, em Planaltina. A auxiliar de laboratório da Secretaria da Saúde Márcia Rodrigues Xavier, à época com 42 anos, e o marido José Omar Diniz Xavier, 41, que hoje trabalha com o terceiro setor, viviam dias calmos. Nada faltava, mas também nada era em excesso. A vida humilde seguia seu rumo.
Um dia, uma colega de trabalho contou que um jovem médico do hospital em que trabalhava havia atendido, em Buritis de Minas, uma criança com grave pneumonia e queimaduras de cigarro pelo corpo. Comovido, o médico havia conseguido a guarda provisória do menino de 2 anos, com o juiz daquela comarca. A mãe do médico, porém, não aceitou aquela criança. Desesperado, ele então havia pedido à auxiliar de enfermagem que arrumasse alguém para cuidar do menino, até que encontrasse uma solução. Márcia ouviu a história. E aceitou levar aquele menino pra casa. “Ele me chamou de mãe assim que me viu”, ela diz, sem disfarçar as lágrimas.
Mas a situação era ilegal. Ela e marido decidiram ir até Buritis de Minas, para falar com o juiz da cidade, que expediu o novo documento, em caráter provisório, até que se decidisse o futuro daquela criança. “As pessoas, até parentes, diziam: ‘Vocês são loucos, as meninas estão criadas...’”. O juiz de Buritis de Minas destituiu o poder familiar da mãe biológica. E o menino seguiu para adoção.
A Vara da Infância de Brasília passou a acompanhar o caso. Em maio de 2009, saiu a guarda definitiva. Juliano, aos 5 anos, tornara-se o filho mais novo de Márcia e José Omar. “Só que, quando voltamos ao fórum de Buritis, para dar entrada no processo de adoção, soubemos que o irmão mais velho, que tinha 8 anos, estava num abrigo, cego do olho esquerdo desde os 6 anos, por causa das surras da avó.”
Mais uma vez, Márcia e José lutaram na Justiça. E conseguiram a guarda provisória. Em junho de 2009, o irmão de Juliano chegou à casa simples na Vila Buritis. Por meio da Rede Solidária, ligada à VIJ, passou a ter acompanhamento psicológico e operou o olho esquerdo. Tem chance de enxergar novamente. Voltou à escola. Está feliz. Quer ser policial quando crescer; Juliano, médico. Ainda em lágrimas, Márcia revela: “Mãe e pai é aprendizado. Estamos aprendendo tudo de novo”. E diz, de mãos dadas com os dois filhos: “A gente se surpreende com a nossa capacidade de amar”. José escuta a mulher falar e chora.
Marcus Eduardo
“Questão de atitude”
Marcus com as duas mães, Giseuda (E) e Eleny: o afeto é inteiramente o mesmo
Ela se casara aos 22 anos, pela primeira vez. Tentou ser mãe. Engravidou. No quarto mês de gestação, um aborto inesperado interrompeu o sonho da maternidade. O tempo passou. E ela decidiu que não mais seria mãe. Aos 26 anos, o casamento entrou em crise. Nessa mesma época, a empregada dela — a cearense Giseuda Alves Pereira, da mesma idade — engravidou do namorado, que, antes de sumir, ainda aconselhou a moça a fazer um aborto. Ela nem o deixou terminar a frase. Naquele dia, a hoje comerciante Eleny Perdigão, mineira de 52 anos, decidiu que seria mãe, como sua fiel empregada, que havia virado amiga e irmã. “Ficamos grávidas juntas”, diz.
Eleny acompanhou a moça a todas as consultas médicas. Comprou o enxoval. Fez as lembrancinhas para a chegada do menino. Torceram, choraram e riram juntas. E Marcus Eduardo Alves Pereira, registrado em nome da mãe biológica, nasceu. Veio forte, grande e chorou choro de vida. Giseuda ficou na casa de Eleny até o filho completar seis anos. Com essa idade, indistintamente, Marcus chamava as duas de mãe.
Ela se casou novamente. Teve mais uma filha. E se mudou para ser a dona da própria casa. Eleny morava na Octogonal e Giseuda, no Cruzeiro. Marcus ficou com a primeira. Nos fins de semana, passava com “a outra mãe”. “Pra mim, isso sempre foi muito natural. Tive o privilégio de ter duas mulheres na minha vida. O afeto é igual”, ele diz. “Só meus amigos, quando eu era criança, não entendiam como eu tinha duas mães. Hoje, acham o maior barato.”
Nas reuniões de escola, quem comparecia era Eleny. Nas datas comemorativas, como o Dia das Mães, Giseuda estava lá. “O pior era quando as professoras me perguntavam de que mãe eu gostava mais. Isso não tinha cabimento...” E assim, duplamente feliz, Marcus cresceu.
Mora no Park Way com Eleny e formou-se em jornalismo. “No dia da formatura, entramos de braços dados com ele. Eu de um lado, a Gi do outro”, conta Eleny. Para homenagear um dos avós — o pai de Eleny —, o hoje baixista da banda Perfecto tatuou o ombro direito. “Tem pássaros, cartas do baralho (ele me ensinou a jogar) e uma câmera fotográfica, porque ele era fotógrafo”, ele explica.
Para Eleny, ser mãe é querer ser. “Muitas dão à luz, mas não são mães. Outras tantas não tiveram o processo da gestação, mas se tornaram. É uma questão de atitude.” Giseuda se emociona: “É coisa de Deus”.
Miguel
“Amor incondicional”
Fabiana e Leandro com os dois pupilos, Miguel e Valentina : "Ensinamento"“Sempre pensei que nunca me casaria. Mas seria mãe de filhos adotivos”, assim pensava a advogada paulistana Fabiana Abrantes Campos Gadelha. Mas o destino a traiu. Ela namorou apenas 70 dias e se casou. Logo nasceu Valentina, hoje com 3 anos e cinco meses. E ela disse ao marido: “O segundo será adotivo”. Ele concordou.
O marido Leandro Gadelha de Paula, administrador de 29 anos, certa vez lhe perguntou: “E uma criança especial, você aceitaria?”. Ela não hesitou: “Não consigo”. Um dia, conheceu Paulinho, um menino de 3 anos, com leucemia, que vivia na Abrace. Valentina contava oito meses. Fabiana e Leandro acolheram-no provisoriamente, até que o processo de adoção se concretizasse. Primeiro habilitaram-se na VIJ e escreveram no perfil: “criança de zero a 3 anos de idade, menino ou menina, de qualquer raça e doença tratável”. Não houve tempo. Depois de quatro meses de convivência e um longo processo de quimioterapia, Paulinho morreu. O casal continuava na fila. “Vivemos o luto de uma família que perde um filho”, ela diz. E eles passaram a participar de grupos virtuais sobre adoção. E conheceram o Aconchego.
Fabiana mudou o perfil no cadastro. Estendeu-o a crianças especiais também. E foi para o cadastro nacional. Passaram-se alguns meses. Um dia, em 22 de setembro de 2009, recebeu um e-mail: “Menino com síndrome de Down, de 9 meses e 8kg, quer?”. E ele estava a quilômetros deles, num abrigo em Tibagi, a 200km de Curitiba (PR). Ela disse ao marido, com certeza inabalável: “É ele. É o nosso filho que nos espera”. Para completar, o casal estava desempregado. Morara nessa época em Uberlândia (MG). Para a viagem, eles pediram ajuda à família. Levaram Valentina e lhe disseram que iam buscar seu irmãozinho. “Quando eu vi aquele bebê molinho, ele tava no colo de uma funcionária da instituição. Eu abracei ele, beijei. Era o meu filho que esperava por mim”, conta Fabiana.
Há 90 dias, o casal deixou Uberlândia e veio para Brasília. Há sete meses, Miguel (que um dia se chamou Pedro Henrique) entrou na vida deles. A nova certidão ficará pronta na semana que vem. Em julho, será batizado. De segunda a sexta-feira, faz fisioterapia, estimulação precoce, hidroterapia e fonoaudiologia. E ri, ri muito de felicidade. Fabiana e Leandro arrumaram novos empregos. Moram em Águas Claras e viraram uma família completa. “O Miguel nos ensina todo dia. É um amor incondicional”, diz o pai, que criou um blog para falar sobre adoção especial e conta a história do seu filho (adocaoespecial.blogspot.com). A mãe, com a voz embargada, emenda: “Ele me devolveu uma fé que eu havia perdido. Encheu nossa vida de luz”.
Artigo
Mera vontade de amar
Soraya Pereira
A nossa língua pátria conceitua a expressão adotar em 11 versões: “1.Optar ou decidir-se por; escolher, preferir. 2.Seguir, abraçar. 3.Tomar, assumir. 4. Aceitar, acolher, seguir. 5.Pôr em prática, em uso; praticar, aplicar. 6.Atribuir (a um filho de outrem) os direitos de filho próprio; perfilhar, legitimar. 7.Usar de, ou passar a usar de; tomar, assumir. 8.Aprovar; outorgar. 9.Admitir, aceitar; reconhecer. 10. Recorrer a, valer-se de. 11. Tomar por filho; perfilhar, legitimar.”
Todavia, há um único sentimento que torna semelhante tantas histórias diferentes: o amor, a pura vontade de amar um ser humano além de seu estereótipo, além de sua genética, além de seu perfil.
Ao buscar razões para adotar, talvez encontremos a impossibilidade de gerar filhos biológicos ou a genuína vontade de ter alguém como filho, pela crença de que é possível amar com a mesma intensidade todos os filhos, independentemente de sua origem biológica.
Encontramos, ainda, motivos mais que surpreendentes para justificar o fenômeno da adoção: são particularidades íntimas, sonhos de infância, desprendimento social, motivações familiares e espirituais, enfim, uma variada gama de motivos legítimos que levam os futuros pais por adoção a perfilhar.
Ou, de outro modo, há apenas a intuição de que seu filho está por aí, à espera de seu colo, em algum lugar. É uma certeza tão indefinida e tão forte que, por vezes, soa como loucura — e pode até ser —, entretanto, é mais uma das excentricidades de mães e pais corujas. É uma busca com destino e tempo indefinidos, mas certa.
Ao investigar os sentimentos que motivam a decisão de adotar, encontramos os mais diferentes e conflitantes: a ansiedade, a esperança, o medo, a alegria... Os mesmos que as mamães e papais gestantes relatam sentir durante a gestação e após, também.
Na alma de quem opta por mais essa forma de constituir uma família, sozinho ou em dupla, não há uma explicação plausível, puramente racional, para se aventurar nesse amor tão real, tão profundo, tão simples. É a mera vontade de amar um filho que justifica o ato de adotar. As mães e pais por adoção dizem que, diferentemente do parto, onde o filho sai do corpo, adotar é permitir que esse filho entre dia a dia na sua vida, para todo o sempre.
No fim, adotar e procriar são formas diferentes de vivenciar e explicar uma mesma coisa: o amor materno e paterno. É olhar nos olhos do filhote e ter a certeza de que é seu, definitivamente.
Soraya Pereira, 51 anos, psicóloga, dois filhos de coração, presidenta do Projeto Aconchego, Brasília/DF
Site:www.projetoaconchego.org.br