sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Jornalista que investigou "buraco redondo" na cabeça do motorista de JK é ouvido por Comissão da Verdade

O presidente da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, vereador Gilberto Natalini, reuniu-se na manhã desta sexta-feira, dia 11, com o jornalista Wanderley Midei. Ele era repórter de polícia do jornal "O Estado de S. Paulo" em 1976, quando recebeu a informação de um neurocirurgião de que Geraldo Ribeiro, motorista do ex-presidente da República Juscelino Kubitschek, tinha um buraco redondo na cabeça, provocado por projétil de arma de fogo. O neurocirurgião teria obtido a informação de um policial rodoviário federal. JK e o motorista morreram em "acidente automobilístico" em Resende (RJ), quando viajavam pela Rodovia Presidente Dutra, de São Paulo para o Rio de Janeiro.

O encontro entre Natalini e Midei, de 70 anos, ocorreu na casa do jornalista, em Aracaju (SE). Após receber a informação, em 1976, Midei passou de três a quatro dias em Resende e no Rio de Janeiro, procurando esclarecer o caso em companhia de outro repórter do jornal, Valério Meinel. Os dois não conseguiram avançar nas investigações. Eram tempos de ditadura militar e de censura aos jornais. Repórteres tinham dificuldade para ter acesso a autoridades e a dados oficiais, a não ser que houvesse interesse por parte dos governantes. Agora, 37 anos após as mortes de JK e Ribeiro, Midei falou sobre o caso.

Domingo, 22 de agosto de 1976. No caminho para o Rio, JK e Ribeiro fazem uma parada no Hotel-Fazenda Villa-Forte, que fica em Engenheiro Passos, município de Resende. Não está claro o motivo que levou o ex-presidente a ir ao hotel, de propriedade do então brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte, um dos criadores do SNI (Serviço Nacional de Informações). Villa-Forte morreu em 1981. JK era candidato a presidente da República na eleição de 1978. É possível que tenha sido atraído ao local para fazer contato com militares. Villa-Forte mantinha relações com o general Golbery do Couto e Silva (primeiro chefe do SNI, em 1964, e ministro da Casa Civil do general-presidente Ernesto Geisel, em 1976) e com o general João Baptista Figueiredo (chefe do SNI em 1976), de quem tinha sido professor.

JK permanece no hotel por cerca de 90 minutos. Um pouco antes das 18 horas, Ribeiro, o experiente motorista do ex-presidente que conduzia um Opala ano 1970, em boas condições de manutenção, aciona o motor para retomar a viagem. Após vencer os 700 metros de distância do hotel até a margem da Rodovia Presidente Dutra, sentido Rio-São Paulo, no antigo km 167, Ribeiro atravessa a pista e pega a estrada para a esquerda, no sentido do Rio, uma manobra possível de ser feita na época.

Em aproximadamente dois minutos e meio, porém, JK, que faria 74 anos dentro de alguns dias, e Ribeiro, de 64, estão mortos.

Assim que entra à esquerda na Dutra, o Opala marfim com capota de vinil preta em que está JK é avistado pelo motorista Josias Nunes de Oliveira, de 33 anos, que conduz um ônibus da Viação Cometa de São Paulo para o Rio. Ele já depôs à Comissão Municipal da Verdade. O carro do presidente está à frente do ônibus. Oliveira chegou a ser acusado de ter provocado o acidente que causou a morte do ex-presidente, mas foi inocentado. Todos os nove passageiros que estavam no coletivo disseram, por unanimidade, que o ônibus não bateu no carro.

Oliveira mantém-se na pista da esquerda, a cerca de 80 km/h, enquanto o automóvel com JK, também em velocidade compatível com a autorizada na época para a Via Dutra, se posiciona na pista da direita, a aproximadamente 70 km/h. O ônibus ultrapassa o Opala e continua à esquerda. No km 165, dois quilômetros após ter entrado na Via Dutra, o carro em que está JK, desgovernado, ultrapassa pela direita o ônibus, talvez a 100 km/h, e, em linha reta, descontrolado, não faz a curva leve que existe à direita. Atravessa o canteiro central da Dutra e sofre forte impacto ao se chocar contra uma carreta que vinha em sentido contrário, do Rio para São Paulo. JK e Ribeiro morrem na hora.

A pergunta permanece até hoje: o que teria levado Ribeiro a fazer essa manobra arriscada? O repórter Valério Meinel, já falecido, investigou a presença de um automóvel Caravan na cena da morte de JK. O carro não foi observado por Josias Nunes de Oliveira. A hipótese levantada pela Comissão Municipal da Verdade é de que do Caravan, que teria se emparelhado à esquerda do Opala de JK, que continuou na pista da direita após ser ultrapassado pelo ônibus, pode ter havido o disparo de arma de fogo contra a cabeça de Ribeiro que, provavelmente já morto, soltou os comandos do Opala ao mesmo tempo em que o peso de seu corpo acionou o acelerador com toda a força. Sem controle, o carro com o ex-presidente atravessou para a outra pista em alta velocidade. É provável que JK, sentado n o banco traseiro, ainda tenha tentado, num ato de desespero, se esticar e alcançar a direção do Opala, para retomar o seu controle. Mas não teve tempo para isso.

Em nome da Comissão Municipal da Verdade, Natalini solicitou ao governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia, a realização de novas perícias técnicas relacionadas ao caso. Natalini quer um novo exame técnico no fragmento metálico encontrado dentro do crânio de Ribeiro durante exumação feita em 1996. Há suspeita de que o fragmento seja parte de um projétil de arma de fogo, apesar da alegação, à época, de que era resto de um prego de caixão. A segunda perícia solicitada é no crânio de Ribeiro, que tinha um furo compatível com o provocado por disparo de arma de fogo. Os restos mortais de Ribeiro estão em cemitério em Belo Horizonte. Natalini solicitou os exames técnicos em 3 de setembro.

Gilberto Natalini (11 99654-9532)

Ivo Patarra (11 99603-5058)

www.natalini.com.br

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