sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Parentes e amigos falam da dura experiência de tentar ajudar um viciado em crack


RIO - Numa cidade que abriu os olhos para a disseminação do crack em suas ruas e casas há cerca de uma semana - quando um músico viciado enforcou a namorada, no Flamengo -, Flávia Materco enxerga mais longe. Com a experiência de 14 anos ajudando o irmão na luta contra as drogas (os três últimos queimados com o crack), ela adverte: "é preciso entender que não são os menores de rua que estão usando crack, é o crack que está levando as pessoas para a rua". Seu irmão, hoje com de 26 anos, tinha 12 anos quando começou a fumar maconha, em meio a uma crise familiar com a separação dos pais. De lá para cá, foi conhecendo outras substâncias. Até que começou a usar aquela que o levou para a sarjeta.
- A primeira vez que vi meu irmão na rua foi por acaso, a poucos metros da minha casa. Estava passando por uma marquise e avistei os sapatos que meu marido tinha dado de presente a ele. Chovia, e meu irmão estava enrolado num saco de ração. Entrei em desespero. Sentei-me e comecei a chorar - relembra ela, onze anos mais velha que o rapaz, e que nunca foi de se conformar. - Eu, graças a Deus, nunca desisti do meu irmão. Cansei de subir morro atrás dele. Pegava uma foto dele e ia. Nunca tive medo. Uma vez, no Cantagalo, o encontrei completamente drogado e prestes a ser morto pelos traficantes. Um deles me perguntou quem eu era e, quando respondi, ele me avisou: "tira seu irmão daqui senão ele vai morrer".
Flávia contou um pouco do drama de seu irmão e de toda a família ao responder a uma pergunta feita pelo site do Globo ao longo da semana: "Você conhece alguém que seja usuário de crack e teve sua vida toda transformada? Conte para a gente". Por telefone, ela contou que chegou a largar a faculdade de Administração no sexto período para fazer Serviço Social para tentar ajudar não apenas o irmão, mas outros na mesma situação.
- As pessoas viram as costas para eles. Acham que não é um problema delas. Mas quem tem vício como meu irmão precisa de ajuda. Não é só uma questão do poder público. A gente tem que fazer a nossa parte - defende ela, que faz questão de dar seu nome. - Não tenho vergonha do meu irmão. É muito importante ter a família envolvida no tratamento.
O processo é difícil. O irmão de Flávia - que é casada e vive com o marido e os filhos e, Vila Isabel - vendeu tudo o que havia na casa da mãe. E chegou a assaltar a casa da irmã. De tempos em tempos, desaparecia.
- Da última vez, ele estava sumido há uns dois meses, e eu o achei por acaso. Passei de ônibus pelo Maracanã e, a distância, achei que aquele homem imundo e descalço, com barba e cabelo enormes, usando roupas rasgadas era meu irmão. Desci do ônibus e demorei a me aproximar porque não tinha certeza se era ele e tinha medo de que fugisse de mim. Mas ele aceitou vir comigo e ser internado. Foi uma vitória. Já tive que chamar bombeiros e o Samu de outras vezes, para ver se alguém me ajudava. Mas a internação tem que ser voluntária, o que, no caso do crack, não deveria ser.
Hoje, o irmão de Flávia está internado há quatro meses numa clínica evangélica, em Niterói. O tratamento dura um ano, e ele vem reagindo bem. Consciente de que na clínica o rapaz está protegido dentro da clínica, e que a cura só poderá ser atestada quando ele sair de lá, Flávia tem esperança de que tudo vai dar certo. Esta esperança vem de dentro de casa:
- Tenho outro irmão que era dependente químico. Os dois começaram a usar drogas juntos, mas ele nunca usou crack e se internou sozinho. Está limpo há três anos, voltou a estudar e a trabalhar. Eles são pessoas boas.
Do outro lado da cidade, uma outra história - também relatada ao site - não tem mais chance de final feliz. Era a de um jovem da Zona Oeste, também viciado em crack, morto há um ano. Não de overdose: aos 26 anos, ele foi encontrado morto numa das ruas de acesso a uma favela, com dois tiros na cabeça. O crime nunca foi esclarecido, mas o pai - que precisou de autorização dos traficantes para pegar o corpo do filho, 14 horas depois de encontrá-lo - apurou que um morador das redondezas, que seria policial, teria advertido o rapaz e alguns amigos que fumavam crack com ele, que não os queria mais ali. Quem conta é sua então namorada, hoje com 25 anos, moradora da Zona Norte do Rio.
- Ele tinha tido uma briga com os pais e estava muito nervoso - relembra ela, que manteve um relacionamento de oito anos com o rapaz, seu primeiro namorado, e prefere não se identificar para não expor a família dele. - De uma certa forma, foi um alívio. Mas é óbvio que a dor é enorme.
Filho de um comerciante, ele foi criado por uma família de boas condições financeiras e estudava Farmácia. A experiência com as drogas começou com a maconha, aos 15 anos. Passou pelo zirrê, uma mistura de crack com maconha, até chegar ao vício do crack, há dois anos.
- Eu mesma já fumei maconha, mas nunca passei disto. Já ele, foi usando drogas cada vez mais pesadas. O problema das drogas era o motivo das idas e vindas do nosso namoro. Ás vezes, ele descia para comprar cigarros e desaparecia. Depois soube por uns moradores de rua que ele estaria assaltando para conseguir dinheiro. Meus amigos me falavam para sair daquela situação, mas você sempre acha que pode consertar as pessoas. Não via razão para abandonar uma pessoa que eu amava.

Leia mais:
http://anjoseguerreiros.blogspot.com/2009/10/psiquiatra-constata-aumento-de-70-no.html

Tratamento de viciados em crack é mais demorado do que o de outras drogas


Fonte: Globo

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