
RIO - O caso do músico Bruno Kligierman de Melo, de 26 anos, viciado que no sábado matou a estudante Bárbara Calazans, de 18, no Flamengo, chamou a atenção de pais de jovens de classe média para um problema que tem atingido todos os segmentos da sociedade: o aumento no consumo do crack. Segundo o psiquiatra Jorge Jaber, especialista no tratamento de dependentes químicos, em cerca de 18 meses houve um crescimento de 70% no número de pacientes que procuram atendimento para se tratar da dependência do crack nas duas clínicas em que ele administra na Zona Oeste.
Embora não seja um dado restrito à classe média - já que Jaber presta atendimento a dependentes de alto poder aquisitivo em sua clínica particular e a pacientes de baixa renda na Câmara Comunitária da Barra da Tijuca -, o psiquiatra ressalta que o crack tem atingido pessoas com ensino superior completo e até mesmo com idade mais avançada. Segundo ele, há três anos começou a haver a entrada da droga de forma significativa na classe mais baixa no Rio. Enquanto isso, a sociedade estava mais preocupada com o uso do ácido e do êxtase na classe mais abastada.
Na estimativa da chefe do Setor de Dependência Química da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Analice Gigliotti, em geral, 30% das pessoas que se internam em clínicas de classe média são usuárias de crack.
Para Analice, o flagelo dos jovens de rua só é maior pelo fato de eles não terem apoio da família e da sociedade para fazerem tratamento. Eles precisam querer se tratar, ao contrário dos usuários de classe média, que, em geral, são levados pelas famílias para as clínicas. A diferença entre os dois públicos é que o consumidor de baixa renda, em geral, não faz uso de drogas mais caras antes de consumir o crack. Já o de classe média alta chega ao crack pelo uso do álcool, da maconha, da cocaína. Jaber explica, no entanto, que o modo de consumo é o mesmo:
- O viciado usa material artesanal para fumar o crack. Eles fazem cachimbo, usam uma caneta. A comparação que eu faço é a pipa: pipa de rico ou de pobre é tudo igual.
Embora o crack ainda esteja mais associado ao usuário completamente degradado, Analice chama atenção para o consumo "social" da droga. Ela relata que já viu pacientes que, no início, conseguiram manter um relativo controle, com uma vida social mais ou menos preservada, sem tanta degradação moral. Mas, isso dura pouco tempo.
De acordo com o especialista em dependência química e diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), João Carlos Dias, já é comum os jovens fazerem uso do crack antes de sair para festas, onde depois eles fumam cigarro e bebem. Até que o crack, pelo seu potencial de causar dependência, assume a preponderância no consumo.
Famílias preferem não encarar o problema
Os três especialistas são unânimes na questão da importância de a família não fugir do problema e encarar a doença do parente. A partir do momento em que começa a haver o uso do crack, a tendência ao descontrole é muito rápida. Por isso, é fundamental que a família perceba a mudança de comportamento do parente e procure ajuda.
- Geralmente a família facilita o consumo da droga negando o perigo. Dá dinheiro, acha que é só um baseadinho. Até que chega o ponto de a pessoa ficar totalmente dependente da família e da droga - ressalta Jaber.
João Carlos Dias lembra ainda que deve haver um entendimento por parte da família de que ela está lidando com um problema de saúde e não como um problema moral. A partir dai, fica mais fácil compartilhar a questão com os demais membros da família e amigos.
Jaber explica que muitas famílias procuram se esquivar do problema e acham que, no caso dos jovens, é uma fase passageira. A partir de alterações em aspectos como o sono, alimentação, higiene e cuidados pessoais já é o momento de a família procurar informação. Em nível mais avançado, não é incomum o viciado praticar furtos em casa para sustentar o vício.
- Os furtos de objetos que são de uso comum da casa já mostram um descontrole significativo da pessoa porque inclui a compulsão. Isso já é uma alteração no funcionamento do cérebro. Os neurônios estão funcionando mais em função da obtenção da substância do que do bom convívio social - esclarece Jaber.
Fernanda Baldioti
O Globo
Embora não seja um dado restrito à classe média - já que Jaber presta atendimento a dependentes de alto poder aquisitivo em sua clínica particular e a pacientes de baixa renda na Câmara Comunitária da Barra da Tijuca -, o psiquiatra ressalta que o crack tem atingido pessoas com ensino superior completo e até mesmo com idade mais avançada. Segundo ele, há três anos começou a haver a entrada da droga de forma significativa na classe mais baixa no Rio. Enquanto isso, a sociedade estava mais preocupada com o uso do ácido e do êxtase na classe mais abastada.
Na estimativa da chefe do Setor de Dependência Química da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Analice Gigliotti, em geral, 30% das pessoas que se internam em clínicas de classe média são usuárias de crack.
Para Analice, o flagelo dos jovens de rua só é maior pelo fato de eles não terem apoio da família e da sociedade para fazerem tratamento. Eles precisam querer se tratar, ao contrário dos usuários de classe média, que, em geral, são levados pelas famílias para as clínicas. A diferença entre os dois públicos é que o consumidor de baixa renda, em geral, não faz uso de drogas mais caras antes de consumir o crack. Já o de classe média alta chega ao crack pelo uso do álcool, da maconha, da cocaína. Jaber explica, no entanto, que o modo de consumo é o mesmo:
- O viciado usa material artesanal para fumar o crack. Eles fazem cachimbo, usam uma caneta. A comparação que eu faço é a pipa: pipa de rico ou de pobre é tudo igual.
Embora o crack ainda esteja mais associado ao usuário completamente degradado, Analice chama atenção para o consumo "social" da droga. Ela relata que já viu pacientes que, no início, conseguiram manter um relativo controle, com uma vida social mais ou menos preservada, sem tanta degradação moral. Mas, isso dura pouco tempo.
De acordo com o especialista em dependência química e diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), João Carlos Dias, já é comum os jovens fazerem uso do crack antes de sair para festas, onde depois eles fumam cigarro e bebem. Até que o crack, pelo seu potencial de causar dependência, assume a preponderância no consumo.
Famílias preferem não encarar o problema
Os três especialistas são unânimes na questão da importância de a família não fugir do problema e encarar a doença do parente. A partir do momento em que começa a haver o uso do crack, a tendência ao descontrole é muito rápida. Por isso, é fundamental que a família perceba a mudança de comportamento do parente e procure ajuda.
- Geralmente a família facilita o consumo da droga negando o perigo. Dá dinheiro, acha que é só um baseadinho. Até que chega o ponto de a pessoa ficar totalmente dependente da família e da droga - ressalta Jaber.
João Carlos Dias lembra ainda que deve haver um entendimento por parte da família de que ela está lidando com um problema de saúde e não como um problema moral. A partir dai, fica mais fácil compartilhar a questão com os demais membros da família e amigos.
Jaber explica que muitas famílias procuram se esquivar do problema e acham que, no caso dos jovens, é uma fase passageira. A partir de alterações em aspectos como o sono, alimentação, higiene e cuidados pessoais já é o momento de a família procurar informação. Em nível mais avançado, não é incomum o viciado praticar furtos em casa para sustentar o vício.
- Os furtos de objetos que são de uso comum da casa já mostram um descontrole significativo da pessoa porque inclui a compulsão. Isso já é uma alteração no funcionamento do cérebro. Os neurônios estão funcionando mais em função da obtenção da substância do que do bom convívio social - esclarece Jaber.
Fernanda Baldioti
O Globo
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