segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Evanildo Bechara - O mestre das letras


Professor Bechara conta da língua portuguesa, mas não só. Conversa sobre educação, papel do professor e também viagem e futebol

O professor Bechara é o homem das letras. Amante da língua portuguesa, é um dos mais respeitados gramáticos do País. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), é lembrado, pelos mais leigos, por quem já estudou com a famosa gramática da capa azul que leva o seu crivo. Autoridade no País para decidir sobre as pendências da nova ortografia, que tenta unir os países da lusofonia, Evanildo Bechara respeita a língua em suas várias modalidades. Não critica. Só não entende o porquê de usar coffeebreak quando temos “lanche” e “merenda”. Acha esnobismo.
Fala inglês, francês, alemão, espanhol e italiano. Mas nem as funções pomposas nem os longos estudos fazem do professor Bechara um homem sisudo. O pernambucano veio a Fortaleza no fim de novembro. Mostrou-se um homem tranquilo, bem-humorado, contador de causos. Falou de língua portuguesa – e isso era inevitável. Mas não só.
Contou do futebol, do campeonato de natação que ganhou, dos filhos que não seguiram as letras, da profissão de professor, das viagens que quer fazer, por mais que ache que o avião perdeu o glamour.
Com 82 anos de idade, Bechara ainda não confia na internet. Prefere o gosto tátil do livro. Tem mais de 25 mil. Um apartamento só não basta. Às vezes, a mulher não entende por que ele chega da Academia ou da universidade e vai para a biblioteca e não para de ler. “Eu sou da geração do livro”, assina, fã de Machado de Assis. Para o professor, “escrever bem é um dom que você aprimora”. E ele, que já viu tantos, ainda se assusta com os erros. Só espero – verdadeiramente – que eu não tenha cometido nenhum nestas páginas.

O POVO - Por que veio uma nova reforma ortográfica?
Evanildo Bechara - A reforma veio racionalizar e veio também economizar muitos usos ortográficos. O acordo, apesar de seus defeitos, vai prestar e está prestando relevantes serviços, porque os primeiros acordos ortográficos tinham um objetivo puramente educacional, simplificar o modo de escrever. Mas hoje não. Além desse aspecto didático e pedagógico, a ortografia tem uma importância para a difusão da língua no mundo. O português é uma das seis primeiras línguas mais faladas no mundo.

O POVO - E por que tem causado tanta polêmica por aqui?
Bechara - A polêmica nasce não necessariamente pela natureza do acordo. Nasce pela natureza da mudança. Todos nós temos aversão à mudança. Nem todo mundo concorda com o horário de verão, com a mudança da parada do ônibus. Qualquer mudança de hábito é recebida com certa repulsa. É natural. Porque a pessoa, quando escreve para os outros, tem que adaptar seu texto às regras oficiais, porque uma das coisas que prejudicam a harmonia da sociedade é a anarquia. Havendo uma anarquia ortográfica, criam-se muitos problemas.

OP - Como o senhor analisa o ensino da língua?
Bechara - Antigamente, imaginava-se que, no português, só havia uma modalidade de língua, que era a língua padrão. Então, se o aluno usava uma gíria ou se o aluno usava um verbo numa regência que não fosse a normal, a normativa, o professor dizia “Isso não se diz”. Ora, como não se diz? O primeiro corredor de aquisição de língua é a imitação. Você aprende uma língua ouvindo essa língua. Mas a língua é a expressão fiel da sociedade. E uma sociedade, por mais equilibrada que seja, apresenta frações, estruturas sociais diferentes. Então, essas diversas camadas possuem variedades de língua. Os sociolinguistas vieram mostrar que essas variedades também existem numa mesma língua. São variedades regionais, sociais, cronológicas. Cada palavra pertence à sua história, à sua sincronia, como nós dizemos.

OP - Isso contribui para a riqueza da língua, o senhor não acha?
Bechara - Exatamente. Por isso que eu defendo a tese de que o melhor ensino de uma língua é o esforço do professor em transformar o aluno num poliglota na sua própria língua. Muita gente imagina a língua como se fosse um organismo fixo e morto. Isto é, fixo, porque não admite mudanças e morto, porque não admite novidades. Mas a língua está em constantes mudanças. As mudanças pelo contato com outras línguas são os empréstimos.

OP - O senhor é a favor da aquisição desses estrangeirismos pela língua portuguesa?
Bechara - Desde que o estrangeirismo seja uma necessidade. Porque o estrangeirismo é um nome de uma nova música, de um novo ritmo musical, de um novo contexto filosófico...

OP - O senhor não acha que, muitas vezes, há exagero?
Bechara - Você pode considerar exagero o que você não tem o correspondente em português adequado. Aí, você tem que usar. Um acadêmico, diplomata, estudioso da língua, Sergio Corrêa da Costa, escreveu um livro muito interessante intitulado Palavras sem fronteira, que são justamente esses estrangeirismos que correm o mundo todo. Ora, se você começa a aportuguesar o estrangeirismo, ao mesmo tempo em que você recebe o estrangeirismo, você se afasta do ambiente internacional em que vive esse estrangeirismo. Vamos dar um exemplo qualquer.

OP - O verbo deletar.
Bechara - O caso do deletar. Em primeiro lugar, deletar já é uma palavra latina. Mas nos chegou do inglês e o inglês é uma língua que está aberta a todas essas aquisições novas. Essa palavra vem enriquecer o nosso léxico e não existem, como antigamente se imaginava, línguas puras. Quer dizer, línguas que não precisam das outras. O estrangeirismo é um enriquecimento para língua quando ele é útil, quando ele nos traz proveito. Agora, aquele estrangeirismo a que você se referiu, que é o estrangeirismo desnecessário, que resulta do esnobismo da pessoa, realmente deve ser posto de lado. Por exemplo, não há razão para, no intervalo de uma conferência, você dizer que está na hora do coffee break. Você tem a palavra “intervalo”, “intervalo para cafezinho”.

OP - O “lanche” resolve.
Bechara - O “lanche” resolve, que, aliás, já é uma palavra inglesa. Há a palavra “merenda”. À medida que você esnoba um aportuguesamento, você se afasta da comunidade internacional. E hoje, mais do que nunca, vivemos num mundo globalizado.

OP - O senhor fala outras línguas?
Bechara - A minha geração é uma geração que não tinha essa facilidade das viagens. Muitos intelectuais não saíram do Brasil para figurarem no quadro dos grandes intelectuais brasileiros. A nossa geração era a geração que aprendia a língua para ler. Por isso, os tradutores, quase sempre, da nossa época, eram melhores do que os tradutores de hoje. Nós nos esforçávamos para entrar nas minúcias do texto estrangeiro. Hoje, nós, intelectuais, não vivemos sem as chamadas línguas de cultura. Você tem que conhecer o inglês, o francês, o alemão, o espanhol e o italiano. E hoje já se está impondo outro conjunto de línguas. Eu conheço muitos rapazes que estão estudando o mandarim, dada a importância que a China está tomando. Outras pessoas, por questões religiosas, estão estudando o sânscrito para poderem entrar nos livros sagrados da Índia. O mundo hoje tem as viagens facilitadas. A viagem de avião hoje perdeu o seu glamour. Ao seu lado, viaja um jovem de calção, de bermuda, de chinelo. Hoje, é muito fácil viajar. Mais acessível. E isso realmente abriu os horizontes do mundo para qualquer pessoa, de modo que hoje o mundo se estreitou muito. E à medida que ele se estreita, o conhecimento de língua se impõe. O que é muito interessante você ir para um país conhecendo mais ou menos a língua que se fala nesse país.

OP - Respeitando as especificidades de cada uma, dá para falar que o português é a língua mais difícil?
Bechara - Todo mundo tem essa impressão. Não existe isso. O problema do português, como acontece em outros lugares e outras línguas, é que, às vezes, é uma língua é mal ensinada. Ou, então, o professor confunde o seu objeto de estudo. Em vez de ele ensinar a língua ao seu aluno, ele quer ensinar gramática. Ora, gramática é uma ciência. A gramática deve estar por trás do professor, porque o que deve estar entre o professor e o aluno é a língua. O aluno quer é aprender a língua.

OP - O ensino do português brasileiro não se confunde com o ensino do português europeu? Ou o senhor não gosta de fazer essa distinção?
Bechara - Na realidade, não. É como se você quisesse fazer a distinção entre você, cearense, e membros da sua família. Existiu um filósofo alemão que disse que a língua era mais forte que o sangue. E você sente isso quando você sai do seu país e vai ao estrangeiro. Uma das sensações mais gostosas é quando você dobra uma esquina e ouve uma música de (Tom) Jobim, de Vinicius (de Moraes).

OP - Você se sente parte do mundo.
Bechara - Você se sente parte do mundo. É a sensação que tiveram os moradores do morro (do Alemão), no Rio de Janeiro, quando as Forças Armadas, depois de conquistarem o espaço, levantaram a bandeira. Outro dia, uma senhora estava dizendo que o momento mais emocionante foi quando ela viu, em cima do morro, a bandeira brasileira hasteada. E ela disse isso com lágrimas nos olhos. Então, quando você viaja ao estrangeiro e ouve a sua língua naquele mar de vozes, você diz: ‘Esse é um dos meus, esse é da minha pátria’. É essa emoção, esse sentimento. A língua portuguesa é unitária nas suas variedades. O país que você frequenta na Europa com o coração na boca é Portugal. Você diz assim: “Eu aqui me sinto em casa”. Manuel Bandeira chamava Portugal de “o meu avozinho”. Se você vai à Espanha ou à França ou à Itália, você não se sente tão em casa como você se sente andando por Lisboa ou andando pelo Estoril ou andando por Coimbra ou andando por Braga.

OP - O senhor tem 82 anos.
Bechara - Véspera de 83. Faço em fevereiro. Eu sou peixes.

OP - Como o senhor se atualiza?
Bechara - Jornal, eu não leio muito. Eu deixo para ler os jornais no fim de semana, porque são matérias mais substanciosas, os colaboradores são mais da minha área. Todos os colaboradores são importantes, mas, durante a semana, os colaboradores são mais da economia, dos esportes, que são atividades importantes. Quando chega sábado ou domingo, os colaboradores são mais da área de letras, de filosofia, de humanidades de um modo geral. Eu tenho uma coluna de língua portuguesa que sai aos domingos no jornal O Dia. É quase sempre respondendo às perguntas dos leitores.

OP - Qual é a dúvida mais recorrente, professor?
Bechara - Atualmente, as dúvidas mais recorrentes são de ortografia. Ou, pelo menos, de perguntas sobre como entender o acordo ortográfico. Mas são perguntas de significados de palavras, de empregos de palavras.

OP - O senhor gosta de esporte?
Bechara - Eu gosto. O meu time no Recife – a gente fica preso ao time da infância – era Náutico. E geralmente, o pernambucano que emigra e é Náutico, no Rio de Janeiro é Botafogo ou Fluminense. Se ele é Sport no Recife, ele é Flamengo. E se ele é Santa Cruz ou Barroso no Recife, ele é Vasco no Rio de Janeiro. Eu nadei pelo Náutico – aqui entre parênteses – fui campeão carioca de natação no meu tempo de criança. No Rio de Janeiro, ainda nadei pelo Tijuca Tênis Clube e também fui campeão carioca. Mas, como eu fui para estudar, era órfão de pai e precisava ascender para vir ajudar a minha mãe, que ficou com meus irmãos, eu – como se diz – meti a cara no livro e não tenho dessa opção nenhum ressentimento nem arrependimento.

OP - Algum dos seus filhos seguiu a área das letras?
Bechara - Felizmente, não.

OP - Felizmente?
Bechara - Felizmente.

OP - Por que felizmente?
Bechara - Porque viram o sacrifício com que um professor tem que vencer na vida. E esse sacrifício se demonstra pela ausência do professor junto à sua família.

OP - Eles trabalham em quê?
Bechara - Eu tenho dois engenheiros: um, engenheiro eletrônico e outro, engenheiro elétrico. E o caçula é professor de educação física, porque o grande ideal dele era ser massagista de miss. (risos)

OP - A profissão de professor é desvalorizada ainda hoje?
Bechara - Infelizmente, é. Hoje, cada vez mais. Antigamente, o professor não ganhava melhor do que ganha hoje, mas tinha um respaldo social melhor.

OP - A tecnologia não ajudou no acesso dos livros pela internet?
Bechara - Mas isso é coisa muito recente. Eu, com 82 anos, não peguei isso. E acontece que essas informações nem sempre são vistoriadas. Se você ler uma enciclopédia, e no fim de um verbete da enciclopédia, você vê o nome do colaborador, você vê que aquilo que está escrito tem um respaldo científico. Muitas vezes, nessas informações da internet, você não sabe quem escreveu aquilo, quem disse aquilo e você, muitas vezes, ou quase sempre, não sabe se aquilo hoje está atualizado.

OP - O senhor usa a Internet?
Bechara - De um modo geral, eu sou da geração do livro. Eu gosto da Internet para uma informação rápida, mas, se quero um aprofundamento, eu geralmente não vou à Internet. A Internet é como se eu abrisse a porta de um cofre. Mas para ver o que existe lá dentro, eu prefiro outros meios e esses meios são a leitura dos livros técnicos.

OP - E para a comunicação?
Bechara - Ah, isso é uma facilidade extraordinária. Para você mandar um artigo, por exemplo. Você escreve um artigo de 20, 30 páginas e, em dois minutos, o artigo está na Alemanha, na França. Já vai digitadinho.

OP - Escrever bem é um dom ou é um processo de estudo?
Bechara - Escrever bem é um dom que você aprimora. É fruto de suor e lágrimas. Agora, escrever do ponto de vista normativo é um problema de estudo, não somente lendo dicionários e gramáticas, mas principalmente lendo os bons autores, os autores que primaram em escrever de acordo com a norma padrão.

OP - Quem o senhor indica?
Bechara - O número um é Machado de Assis, mas Machado de Assis já está um pouco afastado de nós. O número dois, três, quatro e cinco eu colocaria Manuel Bandeira, colocaria Graciliano Ramos, colocaria Cornélio Pena, Drummond.

OP - Quando o senhor lê, o senhor ainda se assusta com os erros?
Bechara - Claro, claro. Principalmente algumas novidades, para as quais você não tem muita explicação. Por exemplo, um dos hábitos comuns que aparecem na língua falada e também na língua escrita é você usar o “daqui” sem a preposição “a”. “Daqui dois dias eu vou visitar...” Mas você não tira a preposição quando você diz “daqui a pouco”. Mas você diz “daqui dois dias”, “daqui três horas”. Outra construção que está sendo introduzida é você dizer, por exemplo, “muitos milhões de homens, muitas milhões de mulheres”, enquanto a palavra “milhão” é uma palavra masculina. Tem que concordar é com o “milhão”. Esse uso está se generalizando, mas a língua é isso.

OP - A língua se faz pelo uso.
Bechara - A língua está num perpétuo devenir. Ela nunca está parada nem no tempo nem no espaço nem nas classes sociais. E isso é que dá esse colorido especial, porque a língua é o homem. O grande problema é que muitas vezes ou é mal ensinada ou o professor pensa que está ensinando língua, mas está ensinando teoria gramatical. Esse é o problema.

Perfil
Evanildo Cavalcante Bechara é recifense. Nasceu em 26 de fevereiro de 1928. É considerada a principal autoridade no Brasil para decidir sobre as pendências no novo acordo ortográfico. É professor titular e emérito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF). Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2000, é sócio-correspondente da Academia de Ciências de Lisboa e doutor honoris causa da Universidade de Coimbra. É autor da Moderna Gramática Portuguesa e da Gramática Escolar da Língua Portuguesa, além de várias outras obras. Em 1971 e 1972, exerceu o cargo de professor titular visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. De 1987 a 1989, exerceu igual cargo na Universidade de Coimbra, em Portugal. É casado e tem três filhos. Atualmente, mora no Rio de Janeiro.

Daniela Nogueira


Artistas e políticos pedem a libertação da iraniana Sakineh, condenada à morte


LONDRES - Mais de 80 artistas, acadêmicos e políticos incluindo o ator Robert Redford, o cantor Sting e o ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner, pediram nesta segunda-feira a libertação da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani.
Sakineh foi sentenciada à morte em 2007 por apedrejamento, pena aplicada aos condenados por adultério no Irã. Em setembro deste ano ela ganhou o perdão da família do marido para esse delito, mas a Justiça confirmou outra pena, de enforcamento, por suposto envolvimento na morte dele.
"Sakineh Mohammadi Ashtiani já sofreu o suficiente", diz a carta aberta dirigida ao líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e ao presidente do país, Mahmoud Ahmadinejad na primeira página do jornal britânico "The Times".
"Nós pedimos ao governo do Irã para libertar imediatamente Sakineh, seu filho Sajad Ghaderzade e seu advogado Javid Houtan Kian", diz a carta.
A chefe de política exterior da União Europeia, Catherine Ashton, o líder do Partido Trabalhista do Reino Unido, Ed Miliband, o ator americano Robert De Niro, e prefeito de Paris, Bertrand Delanoe, e o prêmio Nobel de literatura Wole Soyinka estão entre as 80 personalidades que assinam a carta.
O Parlamento Europeu vai enviar uma comitiva internacional de advogados a Teerã para pôr um pouco de luz no caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani, de 43 anos, condenada à morte por apedrejamento. Depois de passar três dias em casa, para gravar um vídeo onde supostamente confessa o assassinato do marido, entre outros "pecados", ela foi reconduzida à prisão, em Tabriz.

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Amorim reforça oferta de asilo Sakineh



Escola chinesa usa método inusitado para mostrar como os bebês nascem

Cena foi registrada em uma escola de Pequim.
Objetivo é ensinar sobre a importância do controle da natalidade.

Durante uma aula de educação sexual, uma escola de Pequim, na China, usou um método inusitado na última quinta-feira (9) para mostrar aos alunos como os bebês nascem. O objetivo é ensinar as crianças desde cedo sobre a importância do controle da natalidade.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Opinião: Pais têm de observar se timidez dos filhos é excessiva

Vida social é uma parte importante de todo e qualquer indivíduo. Crianças muito tímidas têm de ser estimuladas pelos familiares.

Na coluna anterior, comentei sobre a importância dos pais participarem das festas de fim de ano nas escolas das crianças. Se para um adulto este tipo de evento parece ser algo sem importância, para elas é justamente o contrário: as atividades escolares é o que há de principal em suas vidas.
Nessas situações, que expõe bastante os alunos, algumas crianças são bem exibidinhas. Passeiam pelo palco (geralmente é alguma apresentação teatral) como se estivessem no quintal de casa. Fazem graça e acontecimentos fora do script e são levados na brincadeira. Conseguem se divertir com suas próprias atrapalhadas.
Nem todas, porém, se sentem à vontade diante de uma plateia. Apesar de saberem toda a sequência da apresentação, estar na frente das pessoas, para algumas delas, é um tanto sofrido. Mesmo assim participam, apesar do desconforto. Com a maioria funciona desta maneira.
No entanto, para outras crianças, a situação muda de figura. Podem estar bem preparadas em seu papel, mas a hora de aparecer para o público se torna tão angustiante, que caem aos prantos. O sofrimento fica estampado em seus rostos e se negam a participar. Agarram-se aos seus pais, principalmente às mães, como se fossem verdadeiros polvos: pernas e braços se engancham no corpo do adulto. Entre elas, algumas já desistem de antemão: nem participam dos ensaios.
Muitas famílias já preveem o comportamento dos pequenos. Sabem que ele irá chorar e o lembram disso: “Vê se não vai chorar na hora!”. Há pais que se angustiam mais que os filhos. Sofrem porque acham que o pequeno não vai aguentar. E não é que suas previsões estavam certas: o garoto pulou fora na hora.
Às vezes, não sabemos quem é que realmente está sofrendo: o adulto, por achar que o filho não consegue; ou o filho, por ser muito tímido. Em situações assim, muitos não sabem como agir: forçar a criança a participar mesmo contra sua vontade ou simplesmente deixar como está, como se essa fosse uma característica sua?
Timidez não é algo necessariamente ruim. Penso não ser muito sábio uma pessoa chegar em um lugar e simplesmente ir ocupando os espaços. Nem tudo é seguro e ir um pouco devagar em situações novas é, no mínimo, prudente. Pode-se, assim, conhecer a situação.
No entanto, para algumas pessoas, qualquer situação que possa colocá-la um pouco em evidência, como cumprimentar alguém em uma festa, por exemplo, pode ser extremamente doloroso. Algumas tendem até a se isolar das outras – não participam de nada além da rotina já velha conhecida. Costumam temer as situações sociais, quando os fantasmas da rejeição e de uma possível avaliação negativa as rondam.

Vida social
Pessoas com essas características carregam isso desde a infância. Por isso, embora ninguém precise participar de um teatro escolar a contragosto, é importante observar se a criança tem apenas uma resistência ao palco ou se as interações sociais são muito sofridas para ela. Caso ela tenha dificuldades nessa área, é necessário cuidar – além de ser sofrido para a criança, isso não tende a melhorar com o tempo (como muitos pensam).
A vida social é uma parte importante de todo e qualquer indivíduo. O desenvolvimento das habilidades sociais depende da interação dele com seus pares. Quanto mais a pessoa se fecha, mais difíceis se tornam essas situações para ela, quando então passa a se considerar uma pessoa incompetente para isso.
Por isso, ao percebermos uma criança muito tímida, é importante que a ajudemos em situações com os outros que não os familiares. Um bom começo é estimulá-la com palavras que demonstrem confiança em sua capacidade de participar de um grupo, de interagir com outras pessoas ou até de se colocar em evidência (como o teatro). E jamais obrigá-la a fazer algo que não queira.
Diante de uma desistência, como no caso de não querer participar da festa escolar, o melhor é acolhê-la com carinho. Quem sabe até acompanhá-la em uma situação que ela tema. Sempre com o cuidado de os pais não ficarem presos no medo da criança e, assim, desestimulá-la de qualquer participação social.
Se com o passar do tempo e a ajuda da família e da escola (principal meio social onde muitas coisas são observadas e trabalhadas) não houver nenhuma mudança, faz-se necessário procurar ajuda de um profissional da área da psicologia. Vale a pena! Pessoas assim sofrem muito com suas inseguranças e medos.

(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)


RS: Justiça absolve mãe que matou filho viciado em crack


SÃO PAULO - A aposentada Flávia Costa Hahn, de 62 anos, foi absolvida pela Justiça de Porto Alegre pela morte de seu filho Tobias Lee Manfred Hahn, de 24 anos, viciado em crack. Na Páscoa de 2008, a mãe diz que pegou o revólver do marido para assustar o filho, mas acabou disparando acidentalmente um tiro que o matou.
A decisão do juiz Felipe Keunecke de Oliveira, da 2ª Vara do Júri do Foro Central de Porto Alegre, foi divulgada na quinta-feira. Segundo a sentença do juiz, a mãe agiu em legítima defesa ao atirar contra o rapaz. O caso comoveu a capital gaúcha.
- Ficou demonstrado que o filho, em função de episódios com o crack, tinha atitudes extremamente violentas com ela e com os vizinhos. Além disso, na data do fato agiu agressivamente contra ela. A única maneira que ela tinha para se defender, em função da disparidade de forças, era, infelizmente, ter matado o filho. Inclusive, foi um tiro só, o que demonstra atitude defensiva dela - diz o juiz.
Ao jornal Zero Hora, Flávia Costa declarou ainda se sente muito abalada pelo episódio e afirmou que a dor de ter perdido o filho continuará para sempre com ela. Católica, ela diz que encontrou em Deus o apoio para suportar o vazio de ter perdido o filho único.
À época do crime, também em entrevista aos jornais Zero Hora e Diário Gaúcho, da rede RBS, a aposentada disse que não havia sido enérgica o suficiente com o filho ainda na época do colégio.
Foi no domingo de Páscoa do ano de 2008 que Flávia matou seu único filho, em sua casa de três pavimentos com piscina, na região conhecida como Sétimo Céu, no bairro Tristeza, em Porto Alegre.
Na entrevista, Flávia afirmou que foi mãe aos 34 anos e o filho era muito desejado pelo casal. O casal morava nos Estados Unidos e a casa em Porto Alegre foi feita quando ela engravidou. Logo depois do nascimento, a família foi morar na Venezuela, onde ficou por nove anos. Ela descreveu o filho na infância como "espoleta, bagunceiro, hiperativo". Ao voltar para o Brasil, Flávia voltou a trabalhar.
- Acho que foi ali o meu erro. Pensando que ele estaria bem no colégio, tinha uma pessoa muito boa (uma empregada) cuidando dele - disse ela.
A mãe ficava com o filho à noite e nos fins de semana e achou que isso era suficiente.
- Pensei que isso seria suficiente, mas não foi para o Tobias. Ele saía com os amiguinhos, começou com a maconhazinha no colégio. Acho que não fui enérgica o suficiente.
Flávia afirmou que Tobias, filho único, sempre a dominou.
- Tinha um jeitinho de pedir as coisas que eu não podia negar. Quando não estava no crack, era muito carinhoso. Era a mãezona dele. Às vezes, eu brigava com meu marido, que era mais enérgico, para defendê-lo. Foi muito mimado por mim. Acho que foi esse meu defeito.
Segundo ela, Tobias usava droga desde os 14 anos e passou da maconha para a cocaína. Mantinha o vício assaltando e roubando. Ela disse que não sabia.
- A gente é sempre a última a saber. Então eu consegui um trabalho em Brasília e fui para lá. O meu marido ficou aqui, desesperado, não aguentou a situação. O Tobias batia no meu marido, maltratava a pessoa que cuidava do meu marido. Então, levei ele para Brasília - contou.
Na capital federal, o filho deixou a cocaína e passou a consumir apenas maconha. Lá, Tobias fez curso de modelo, musculação e cuidava da pele. Em seguida, ela se mudou com o filho para o Rio e Tobias manteve o consumo de maconha.
- Mas nunca me pediu dinheiro além da mesada de R$ 300. Ele ia à praia, fez curso de guia de turismo e trabalhava como modelo. Até a Xuxa chamou ele para entrevista.
O inferno, segundo ela, começou em 2006, quando retornou a Porto Alegre.
- Ele reencontrou antigos amigos e começou a usar crack direto. Aqui é muito fácil. A zona é residencial classe A, mas se caminha 200 metros e tem uma vila com três traficantes e do outro lado tem um beco com um monte de traficantes. O crack é muito barato. Qualquer um tem R$ 5 para comprar.
A mãe contou que o filho não aceitava internações e sempre retornava ao vício. O dinheiro que ganhava no trabalho era usado na compra de drogas. Começou então a agredi-la.
- Quando surtava, ele me batia. Me bateu várias vezes. Às vezes, ele dava tapas no meu rosto e a cabeça voava. Ficava toda machucada. No Natal passado, ele queria dinheiro, eu não tinha, e ele me tirou a soco de casa até o bar do seu Adão, que é meu amigo, aqui perto, para pedir R$ 20. Estava fechado. Ele me empurrou a soco, escadaria acima, até a casa do seu Adão. Eu caía, levantava, ele me empurrava para ir mais rápido. Não tinha ninguém. Tive de voltar em casa, pegar o cartão de crédito e ir no banco sacar dinheiro. Eu era o banco 24 horas dele.
Flávia dava dinheiro ao filho para ele não roubasse outras pessoas ou cometesse um crime. Até peças do carro dela ele teria vendido para comprar drogas, além de casacos e sapatos da mãe.
Para evitar, trancava toda a casa e deixava acesso à cozinha e ao quarto dele.
- Ele ameaçou colocar fogo na casa. Tinha medo dele.
A aposentada contou que a família passou a ser refém do crack, mas nunca perdeu a esperança de o filho deixar a droga. Também, acrescentou, que nunca pensou em matá-lo
- Nunca pensei que pudesse ter uma atitude radical com o Tobias. Só peguei aquele revólver para assustá-lo. Foi um tiro só. Um acidente. Não direcionei a arma, não apontaria para o rosto dele. Ele passou correndo por mim, estava desnorteado. Tentou me explodir com gás dentro da cozinha, foi dramático.
Flávia disse que a vida ficou vazia sem o filho.
- A vida parece que parou. O centro das minhas atenções era meu filho. Por mais que me usava para comprar droga, eu estava sempre perto dele.


O mundo 4 graus mais quente

NOVOS CÁLCULOS
Militantes da ONG WWF acendem velas em Cancún. Os cientistas já perderam a esperança de que a temperatura suba só 2 graus

Com o impasse de Cancún, cientistas abandonam a ilusão de um aquecimento global moderado

A reunião de 194 países realizada em Cancún, no México, foi um marco na luta contra o aquecimento global. Infelizmente, não por avançar nas negociações de um acordo para limitar as emissões poluentes que afetam o clima do planeta. O que mudou, na semana passada, foi a posição dos especialistas em mudanças climáticas. A maioria deles já não acredita que seja possível limitar o aquecimento a apenas 2 graus célsius a mais do que a temperatura média da Terra há um século.
É esse número mágico que está por trás da tentativa de fechar um acordo em 2012 que substitua o Protocolo de Kyoto, de 1997 – que não teve muito efeito. Se todos os países conseguissem conter suas emissões, as mudanças (elevação do nível do mar, secas, enchentes etc.) seriam administráveis, por meio de investimentos em infraestrutura e avanços científicos. O aumento de 2 graus até 2100, segundo os cientistas, é o mínimo que podemos esperar, considerando a concentração atual de gás carbônico na atmosfera (40% mais do que antes da era industrial) e o que inevitavelmente será despejado na próxima década, mesmo que mudássemos a partir de amanhã todas as indústrias e atividades agrícolas.
Com o emperramento das discussões diplomáticas, a maior parte dos cientistas passou a acreditar que devemos nos preparar para uma Terra de 3 a 4 graus mais quente, no mínimo. Esse é o foco de um conjunto de estudos divulgado há duas semanas s pela Royal Society, a academia de ciências do Reino Unido (leia os gráficos abaixo). “Se tivéssemos um novo Plano Marshall (projeto de reconstrução da Europa após a Segunda Guerra Mundial) para despoluir todas as grandes economias em 15 anos, seria viável. Mas isso não vai ocorrer”, diz Mark New, da Universidade de Oxford, um dos coordenadores dos estudos.
Para piorar, o descontrole do clima é um processo difícil de ser contido, uma vez iniciado. “Se amanhã, milagrosamente, o mundo começasse a reduzir as emissões, a redução no ritmo de aumento de temperatura começaria a ser sentida em 25 ou 30 anos”, diz o climatologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Um aumento de 4 graus célsius em 100 anos pode parecer pequeno, mas o mundo levou 20 mil anos para esquentar 6 graus desde a última era glacial.
Em que mundo viveriam nossos filhos e netos, em média 4 graus mais quente? Para começar, seria ruim para as nações emergentes. Estudos americanos estimam declínios de 63% a 82% até 2100 na produtividade de milho, soja e algodão em países temperados. E perdas maiores nos trópicos. Países ricos, como a Holanda e o Reino Unido, já têm planos para barreiras que segurem uma elevação de 2 metros do mar. Mas isso não é opção para 8,7 milhões de pessoas que ficarão desabrigadas em áreas alagáveis da Índia, do Paquistão e até no Brasil. Segundo estudos, dois terços das consequências no mundo não podem ser evitados por medidas preventivas e resultarão em mais pobreza entre os emergentes.
O Brasil pode ter sua cota de sacrifícios. O mar poderá subir mais de 1 metro até 2100. E mais de 1,5 metro até 2200. Isso ameaçaria cidades litorâneas, como Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Teríamos de erguer barreiras rochosas para evitar a invasão das avenidas à beira-mar. Os sistemas de drenagem de águas de chuvas e esgotos teriam de ser refeitos para vencer as marés. Alguns modelos preveem o ressecamento da Amazônia brasileira e do celeiro agrícola do Centro-Oeste. Esses cálculos ainda são incertos, porque dependem de interações complexas da atmosfera. E dificilmente os pesquisadores conseguirão um grau de certeza maior, mesmo com computadores mais possantes, por falta de referências sobre variações climáticas no passado. A opção será se preparar para o pior, com ações como desenvolver variedades agrícolas mais resistentes.
Quem vai pagar por isso? Como os países desenvolvidos foram os maiores responsáveis pelas emissões que nos colocaram na situação atual, a tendência é que assumam parte do ônus pela remediação. Até a reunião do clima do ano passado, em Copenhague, estimava-se que financiar essas adaptações custaria de US$ 40 bilhões a US$ 170 bilhões por ano. Mas isso para um cenário de 2 graus de aquecimento. Com a previsão piorada, os custos vão aumentar. E o maior desafio vai além desses recursos: trata-se de traçar planos para enfrentar as mudanças climáticas já irreversíveis sem desistir de lutar por acordos internacionais que controlem as emissões e evitem um aquecimento ainda mais drástico – que, segundo alguns cientistas, poderia até tornar o planeta inadequado para a vida humana.

Aline Ribeiro e Alexandre Mansur


Época

MEC vai distribuir 8 mil livros sobre história da África a bibliotecas públicas do país


RIO - Durante o lançamento de uma coleção sobre história geral da África, o ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou que 8 mil exemplares serão distribuídos para todas as bibliotecas públicas do país até fevereiro de 2011.
"Não basta a vontade de querer cumprir a lei [que inclui o estudo da cultura e da história da África como conteúdo obrigatório em todas as escolas brasileiras], é preciso esforço", disse. "Essa coleção vai enriquecer a nossa própria cultura e vai inaugurar uma linha de pesquisa no Brasil sobre a história da África", completou.
Para o secretário de Educação Continuada do MEC, André Lázaro, o lançamento dos livros tem um significado histórico, uma vez que representa uma transformação cultural no país e uma tentativa de superar o racismo. "A primeira etapa é reconhecer que temos um problema", afirmou.
O coordenador do projeto, Válter Silvério, concorda que a obra vai ajudar a despertar a curiosidade de jovens pesquisadores no país. "Eles terão, pelo menos, um material de referência nesse tema. Acredito que a coleção possa nos fornecer um conhecimento do que somos enquanto povo e enquanto nação", concluiu.
Ele lembrou que o racismo não é algo sobre o qual as pessoas têm necessariamente consciência. Segundo Silvério, o lançamento dos livros é importante para que o país possa ampliar a construção de uma sociedade menos racista e mais democrática.


Falta de informação faz portadores de marca-passo evitarem esportes, celular e até sauna


Pacientes deixam de realizar atividades e ficam mais expostos a doenças

O advogado Edilson Avelar, de 53 anos, ficou oito anos sem ir às sessões de sauna de que ele tanto gosta. Os culpados pela mudança de hábito foram uma parada cardiorrespiratória que ele sofreu em julho de 2002, o marca-passo que passou a utilizar depois isso e a falta de informações sobre o uso adequado do aparelho.
Um estudo desenvolvido em uma clínica particular de Vitória, no Espírito Santo, demonstrou que muitos pacientes portadores de marca-passo consideram que o aparelho os impede de realizar diversas atividades que, na verdade, eles estão aptos a fazer.
De acordo com os resultados da pesquisa, dentre os 198 pacientes entrevistados, 27% julgam que fazer sexo é inadequado após a implantação do marca-passo, 30% evitam dormir sobre o lado em que está o aparelho, 42% deixam de andar de bicicleta, 46% evitam usar o computador com internet, 47% acham arriscado nadar na praia, e o mesmo percentual evita o telefone celular, 58% não fazem esportes de recreação ou academia e 75% acreditam que fazer sauna não é seguro, dentre outros resultados.
Segundo o coordenador da pesquisa, o médico Jorge Elias Neto, da Clínica do Ritmo e especialista da Sobrac (Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas), apesar de os pacientes receberem orientações sobre o que podem e o que não podem fazer após o implante, muitos não se sentem seguros. Com isso, ao abandonar atividades que poderiam melhorar a qualidade de suas vidas, eles abrem a porta para uma série de doenças, como depressão.
- Não adianta agregar tecnologia aos aparelhos se os pacientes não estão informados e aptos a usar adequadamente o marca-passo. Isso é impactante porque interfere na qualidade de vida do indivíduo, como caminhar ou ir à praia. Com o passar do tempo, pode causar uma série de outras doenças.
No caso de Edilson, ele só voltou às sessões de sauna em junho passado – oito anos após implantar o marca-passo – e depois de uma atitude simples: perguntou ao seu médico se havia alguma restrição.
- Tinha deixado de fazer a sauna porque, como o aparelho é subcutâneo, achava que iria esquentar e podia danificar. Mas resolvi perguntar ao meu médico e vi que não tinha problema.
De acordo com o cardiologista Martino Martinelli, professor da USP (Universidade de São Paulo) e diretor da Unidade Clínica de Estimulação Cardíaca do Incor (Instituto do Coração), as limitações desses pacientes não são impostas pelo marca-passo, mas, sim, pela doença que levou à implantação do aparelho.
- Se o indivíduo tem um coração de tamanho normal e sem doença, ele pode fazer tudo o que as demais pessoas. O marca-passo está lá para permitir que ele possa fazer mais coisas.

O marca-passo
A função de um marca-passo é corrigir os batimentos cardíacos lentos por meio da emissão de impulsos elétricos. Com isso, ele contribui para que o coração envie uma quantidade adequada de sangue para os órgãos. Segundo Martinelli, o aparelho atua fisiologicamente como o coração.
- Ele aumenta o batimento cardíaco durante a prática de exercícios e situações de ansiedade e diminuem durante o sono.
As principais doenças que levam à implantação de um marca-passo, de acordo com Martinelli, são infarto, doença de Chagas e coração dilatado.
Implantados cirurgicamente, o aparelho é composto por uma bateria de lítio, um gerador de impulsos e eletrodos que o conectam ao coração. A duração média da bateria é de cinco anos, mas o paciente precisa ser acompanhado regularmente por um médico durante esse período. Depois isso, a bateria é trocada por meio de uma pequena cirurgia.
Sobre as restrições que o aparelho impõe, Martinelli afirma que os portadores de marca-passo devem evitar atividades físicas que provoquem choque, como taekwondo, judô e beisebol. Já futebol e basquete, só podem ser praticados com proteção.
Além disso, é preciso evitar locais com campo magnético, que podem interferir no funcionamento eletrônico do marca-passo. Por isso, é preciso ficar longe de campos de alta tensão, lugares mal aterrados e detectores de metais e armas. Martinelli afirma ainda que aparelhos de raios-x e ultrassom não causam problemas.
- O paciente tem muitos mitos, como ficar longe de eletrodomésticos. Alguns acreditam que não podem fazer sexo porque não podem chacoalhar muito. Ou então que o aparelho muda de posição quando ele sobe ou desce uma ladeira. Mesmo alguns médicos acham que isso causa problemas. Mas é tudo mito.
Segundo Neto, apesar de os pacientes serem informados, falta padronização na informação. Ele diz que os portadores deveriam receber um material didático, além de serem lembrados periodicamente do que podem ou não fazer.
- O marca-passo ainda é um tabu. As pessoas comuns e até médicos dão respostas erradas e o paciente passa a incorporar no seu dia a dia o que os outros dizem.

Vida melhor
Apesar de muitos pacientes evitarem algumas atividades, o estudo mostrou que 78% dos entrevistados afirmaram que suas vidas melhoraram após a implantação do marca-passo.
Segundo Neto, isso ocorre porque as doenças que motivam a instalação do aparelho são, em geral, de alto risco e geram sintomas graves.
- Mas esses pacientes poderiam estar muito melhores se se permitissem mais.
É o caso do aposentado Vicente Nolasco Costa, de 84 anos, que há mais de 13 anos usa o aparelho. Ele afirma que atualmente faz caminhadas e exercícios como flexão pelo menos três vezes por semana.
- Faço 85 anos no mês que vem, mas tenho disposição de 60 ou um pouco mais. Se eu não tivesse marca-passo, já tinha morrido há muito tempo.
Já Edilson, que voltou a fazer a sua sauna, tem hoje uma vida praticamente igual à de antes do marca-passo. A única diferença é o futebol.
- Tenho uma vida absolutamente normal. Tirando a bolinha que eu não jogo mais, o resto está tudo tranquilo.

Diego Junqueira


Nível das escolas no Brasil passa ‘de desastroso a muito ruim‘, diz ‘Economist’

Brasil ficou em 53º lugar entre 65 países no último ranking do Pisa

Em edição publicada nesta quinta-feira, a revista britânica The Economist diz que dados recém-divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que a educação brasileira teve “ganhos sólidos” na última década.

Ainda assim, a revista afirma que “o progresso recente meramente elevou o nível das escolas de desastroso para muito ruim”.
A Economist se referia à divulgação, na última terça-feira, do 4º Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que mediu o nível da educação em 65 países. O Brasil ficou na 53º colocação, tendo obtido 412 pontos em leitura, 386 em matemática e 405 pontos em ciência.
O desempenho do país em cada uma das três áreas foi, em média, 20 pontos superior ao registrado no último teste, em 2006. O resultado fez com que a OCDE considerasse que o caso brasileiro revelava “lições encorajadoras”.
Em entrevista à Economist, a pesquisadora Barbara Bruns, do Banco Mundial, cita entre os motivos para a melhoria o sistema brasileiro de avaliação escolar, criado há 15 anos.
“De um ponto de partida em que não havia nenhuma informação sobre o aprendizado do estudante, as duas (últimas) presidências construíram um dos sistemas de medição de resultados educacionais mais impressionantes do mundo”, disse ela.
Apesar do avanço, a revista diz que dois terços dos jovens de 15 anos são incapazes de fazer qualquer coisa além de aritmética básica.
“Mesmo escolas privadas e pagas são medíocres. Seus pupilos vêm das casas mais ricas, mas eles se tornam jovens de 15 anos que não se saem melhor que um adolescente médio da OCDE”, afirma a publicação.
Segundo a Economist, uma das razões para a má qualidade do ensino é o desperdício de dinheiro. “Como os professores se aposentam com salários integrais após 25 anos para mulheres e 30 para homens, até a metade dos orçamentos da escola vai para as aposentadorias”, diz a revista.
A publicação afirma ainda que, exceto em poucos locais, professores podem faltar em 40 dos 200 dias escolares sem ter o salário descontado.
A Economist diz que o país estabeleceu a meta de alcançar a média da OCDE na próxima década, mas alerta que, “no ritmo atual, chegará só até a metade do caminho”.
A solução, aponta a revista, é propagar iniciativas como a da cidade do Rio (que combate a falta de professores dando pagando bônus às escolas que atingirem metas) e a do Estado de São Paulo (que criou plano de carreira a professores que vão bem em testes de conhecimento).
“Se o Brasil alcançar a nota, será porque conseguiu espalhar essas práticas inovadoras por todos os cantos”, conclui a revista.

Ex-coordenador de base do Grêmio é acusado de pedofilia



José Alzir Flor da Silva trabalhou durante 25 anos no Tricolor gaúcho

O ex-coordenador do futebol de base do Grêmio, José Alzir Flor da Silva, está sendo investigado pelo Ministério Público por pedofilia. A denúncia foi revelada após o caso começar a ser apreciado pela Vara de Infância de Juventude de Porto Alegre. José Alzir, que durante 25 anos trabalhou no clube, passou a ser julgado pelos crimes de assédio sexual, maus-tratos e coação.
As investigações tiveram início após a participação das categorias de base Grêmio em um torneio no interior gaúcho. Segundo testemunhas, José Alzir Flor da Silva teria ficado no mesmo dormitório que os meninos, onde teria se valido de sua condição para abusos e maus-tratos. Após cerca de um ano de apuração, os promotores concluíram que o ex-profissional do clube gaúcho é o responsável pelos crimes cometidos.
– As crianças e os adolescentes estavam alojados e ele se utilizava dessa proximidade, desse acesso e até basicamente da condição de superior dentro da função que exercia. Isso sem dúvida facilitou a prática dos fatos – salientou o promotor Alexandre Spizzirri, em entrevista ao "Jornal da Globo".
Foram constatados abusos contra três meninos da base gremista, com idades entre 11 a 13 anos, mas a suspeita é que mais casos venham a ser comprovados.
– A gente sabe que não é incomum que ocorram fatos envolvendo violência sexual contra crianças e adolescentes em situação de futebol. Pelo período que essa pessoa trabalhou dentro da instituição e sabemos que a situação de pedofilia não surge de uma hora para outra. Ela vai crescendo e evoluindo com o tempo – frisou a promotora Denise Casanova Vilella.
Todos os casos apurados até o momento são de 2008 e 2009. Segundo a promotoria, José Alzir teria cometido abusos nos alojamentos do estádio Olímpico, onde moram cerca de 80 meninos do interior e de fora do Rio Grande do Sul.
O presidente do Grêmio, Duda Kroeff, que demitira o ex-coordenador, ressaltou que os futuros craques gremistas estão agora “blindados” e que toda a estrutura foi colocada em prática para preservá-los.
- Considero o caso gravíssimo. Lamento profundamente. As categorias de base são um setor sagrado aqui no Grêmio. Mas acho difícil isso acontecer. Eles (os meninos) estão altamente protegidos. Eu me interessei muito após isso, para ver como funciona tudo. Verifiquei pessoalmente e vi que a estrutura é muito boa – disse o dirigente.



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