quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Relato verídico de uma vítima de abuso sexual na infância


" Eu fui uma de tantas crianças que foram abusadas sexualmente na infância por meu pai.

Não fui a primeira nem a última.
Antes de me abusar, ele já abusara de crianças e adolescentes, tanto na família de origem dele como na da minha mãe.
Minhas lembranças de ter sido abusada por ele, vêm desde a época que eu ainda ia ao jardim de infância. Meu pai me assediava diariamente e esta tortura durou por toda minha infância e também adolescência, quando comecei a tentar me esquivar dele e a protestar contra suas investidas.
Como é comum de abusadores deste tipo, desde pequenina meu pai fazia chantagens emocionais comigo, pedia que eu guardasse segredo, como prova de meu amor por ele, pois caso contrário ele afirmava que seria preso.
Ele dizia que as pessoas não entenderiam este amor dele por mim.
Segundo ele, este amor que ele dizia sentir por mim era o maior que ele já tivera.
Ele dizia não sentir amor por minha mãe e sim por mim.
Meus conceitos de certo ou errado, ficaram afetados por muitos anos, pois o conflito de querer acreditar que meu pai estava certo, como toda criança acredita e a sensação de que algo estava muito errado, por causa do segredo que ele me fazia guardar, fizeram com que eu tivesse uma percepção muito distorcida da realidade durante a minha infância.
Jamais consegui ter proximidade com minha mãe ou ser amiga dela, nem eu sentia que ela era minha amiga, pois meu pai dizia que  ela sentiria muitos ciúmes e raiva de mim se um dia soubesse que ele amava mais a mim do que a ela.
Assim, como defesa, eu passei a sentir raiva dela desde criança.
Anos mais tarde, quando eu já era adulta, fiquei sabendo que ela tinha conhecimento de que meu pai abusara de pessoas na família dela também, antes de eu nascer.
Sabendo disto não consegui mais ter respeito por ela depois de perceber que, apesar de ela saber que meu pai continuava a abusar sexualmente de crianças, ela ainda insistia tanto em querer ficar ao lado dele.
Acho importante transmitir às pessoas o quanto o abuso sexual se estende para muito além do próprio abuso sexual.
Isso afeta a vida das pessoas no sentido mais intenso e mais extenso que qualquer tipo de violência pode causar, ao mesmo tempo que deixa a pessoa viva para sofrer a dor do abandono, da traição e do desamor.
Minha baixa auto estima, meu sentimento derrotista e minhas dificuldades de relacionamentos culminaram em uma forte depressão aos meus 26 anos, quando fui abandonada por um namorado, que apesar de ser médico, dizia não conseguir conviver com meus estados depressivos.
Como muitas das vítimas de abuso sexual na infância, eu também não quis mais viver…
Após longo período de hospitalização, psicoterapia e antidepressivos, tive retomada a vontade de viver.
Mas o principal motivo, foi acreditar que eu era amada por aqueles que me socorreram: meus próprios pais.
Pedidos de desculpas, foram encarecidamente apresentados, assim como cumprimentos de novenas e promessas de que meu pai jamais abusaria sexualmente de qualquer pessoa novamente, em troca do meu perdão.
Ele se declarava "curado"!
Jurava que eu podia acreditar nele a partir de então.
Eu era a pessoa que mais queria acreditar nisso.
Eu acreditei que a iminência da minha própria morte o fizera perceber o quanto ele havia me machucado e o perdoei tentando recomeçar uma vida nova.
Eu não fazia idéia ainda, de que a história acontecida comigo voltaria a se repetir por muitos anos afora.
Mais tarde, depois de perceber toda a farsa, ao me dar conta de que ele voltara a abusar sexualmente de crianças, passei anos me debatendo em brigas com meu pai e ele tentando convencer as pessoas de que eu era louca.
Todas as tentativas de fazer com que as pessoas acreditassem em mim foram inúteis.
As pessoas da minha família achavam que eu tinha uma obsessão em suspeitar dele por causa do que eu havia vivido na infância.
Fiquei mais uma vez isolada, desta vez por trazer a verdade à tona e tentar proteger novas vítimas.
Sem as interferências negativas de minha família, consegui me fortalecer, apesar de ter carregado ainda por muitos anos o sentimento de culpa de que se um dia eu fosse tornar pública uma denúncia contra meu pai, eu iria destruir minha família.
Apesar disso, a idéia não me saia da cabeça, pois eu sabia que ele continuava a molestar crianças, mas eu me sentia ainda acuada e isolada para tomar uma atitude em relação a isso.
Tudo mudou, quando tomei conhecimento da ASCA, uma organização de sobreviventes de abuso sexual na infância aqui na Austrália.
Ao ouvir as histórias de outras sobreviventes, me dei conta de como minha história se repetia na vida de tantas outras pessoas que eu nem conhecia e também de como ficava mais claro olhar de fora a experiência destas pessoas e analisar meus próprios traumas.
Além dos encontros, outras formas de ensinamentos compartilhados foram a intensa leitura de obras literárias de outros sobreviventes, de terapeutas do ramo e de pesquisas.
Com tudo isso, passei a não me sentir mais isolada e sim fortalecida.
Eu me conscientizei, a partir de então, que era meu direito reclamar minha dignidade e também era meu dever alertar as pessoas para proteger novas vítimas de meu pai.
Denunciei meu pai por escrito às autoridades Brasileiras.
Decidi que ninguém mais me faria calar todas as angústias e repressões que eu tinha atravessadas na garganta por toda minha vida.
Foi a partir daí que a coisa começou a tomar jeito.
A promotoria apresentou a denúncia e com o tempo outras vítimas de meu pai começaram a confirmar os abusos.
Quando o abusador já estiver em idade avançada, como no caso de meu pai, as pessoas se deixam influenciar pela aparência do velho frágil e desprotegido, sem se dar conta de que por trás daquela imagem ilusória existe uma pessoa perigosa.
Outro problema que ainda existe é a crença de que crianças querem seduzir os adultos através do sexo.
Não existe como a vítima ver no terapeuta o seu aliado, se este não acredita na inocência, tanto do ato, como da intenção desta.
Quebrar o silêncio é o primeiro passo para isso.
Entretanto, também é necessário que esta possa se valer de direitos e de mecanismos legais de proteção e de reconhecimento e de respeito pelos danos sofridos.
A falta de legislação adequada que garanta a proteção das vítimas e testemunhas, bem como o afastamento definitivo do abusador de suas vidas, faz com que a grande maioria jamais reclame ou tome a iniciativa de denunciar os abusadores.

Depoimento de E. N.

Sobrevivente de abuso sexual na infância.


Fonte: Todos contra a pedofilia

Assista também ao vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=9L7VAurIwu0

12 comentários:

  1. Até hoje eu me lembro do que aconteceu. Aliás, até uns anos atras fiz questão de esquecer. Permeti-me bloquear todas as lembranças ruins. Ninguém nunca soube oque eu passava. Dopois do abuso sexual que sofri pelos filhos da babá, veio a anorexia e a depressão. Isso me marca até hoje. Eu não consigo deixar essa ferida cicatrizar.

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  2. Bloquear não resolve nada. O abuso que você viveu faz parte da sua história. Pense agora em voce mesmo. O que que voce precisa para ficar forte quando essas lembrancas entraren na sua cabeca? Aceite a dor, aceite que eles e essa lembranca bem devagarzinho saiam de sua cabeca. Aceite que voce merece ser feliz e ate ter uma vida sexual normal. O que eles fizeran nao foi certo, ainda bem que no mundo tem um monte de pessoas que sao certaas en dignas do seu amor. paciencia e a cicatriz vai chegar....

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  3. Tambem passei poriço más foi com meu irmão.
    Ele abusou de mim dos quatro anos de idade ate os onze.
    Esto sofrendo muinto com o tralma que tenho hoje ..... praticamente minha vida acabou.....
    Preciso de ajuda de pessoas que ja passaram pelo mesmo que eu.

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  4. isso eh muito triste,mas vc nao esta so nessa,Tudo de bom pra vc,algo parecido aconteceu comigo,no onibus um cara se tocava ao meu lado...nunca vou esquecer isso,foi horrivel,so deus pode me salvar

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  5. isso eh muito triste,mas vc nao esta so nessa,Tudo de bom pra vc,algo parecido aconteceu comigo,no onibus um cara se tocava ao meu lado...nunca vou esquecer isso,foi horrivel,so deus pode me salvar

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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    Respostas
    1. Triste e realmente acontece. Devia mesmo ter pena bastante severa para pais ou parentes proximos que praticam sexo com filhos. Do texto só não entendi dois paragrafos divergentes. "...tomei conhecimento da ASCA, uma organização de sobreviventes de abuso sexual na infância aqui na Austrália." e "Denunciei meu pai por escrito às autoridades Brasileiras.". Ora, foi na Australia ou no Brasil?
      (Editado corrigindo erros de portugues)

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  7. Não existe explicação para a dor de quem já foi abusada sexualmente.Lamento o ocorrido e digo que também já fui estuprada e hoje estou me recuperando com a terapia e a mediação que tomo.Somos fortes apesar das dores.

    Abraço!

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  8. Tenho 16 anos e sofri abuso com 7 anos de idade. Não sei se é 'realmente' um abuso sexual, já que não foi cometido o ato. Mas o vizinho do meu avô, tirou a roupa pra mim e se masturbava na minha frente. Chegou a passar sua genitália em mim, me tocava.. mas nunca me estuprou. Isso é abuso ? Nunca contei aos meus pais, tenho medo pois esse homem ainda é vizinho dos meus avós. Tenho medo. Ás vezes penso que é coisa da minha cabeça. O que eu faço ? Choro muito, não consigo gostar de um garoto e nunca aceito namorar com ninguém. Tenho medo de que queira me obrigar a transar com ele. Namoro leva a sexo. Eu deveria contar as meus pais ? Tenho muita vergonha, eu tenho CERTEZA que eles acreditariam em mim, mas não tenho coragem.

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  9. Vc deve contar sim para um adulto que a acompanhará ao Conselho Tutelar de sua cidade e lhe orientará a respeito. A violência sexual contra crianças e adolescentes é compreendida desde falar coisas obscenas até o ato sexual com penetração forçada.No caso , a violência fica caracterizada como "exibicionismo".
    Procure ajuda!
    Abraços
    Carmen e Maria Célia

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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