sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Para morador, preconceito ainda prejudica vida em favela pós-UPP


A sensação de segurança pode ser maior, mas o técnico de informática C. ainda vê a vida no morro da Babilônia, na Zona Sul do Rio, com duas preocupações: o preconceito de quem vive fora das favelas e as cicatrizes deixadas por anos de tensão.

"Você mete um prego em uma madeira e pode tirar, mas as marcas ficam", afirma o morador da comunidade, que hoje conta com uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora).
"Muitas marcas ficaram. Nós que moramos aqui não conseguimos ouvir fogos de artifício. Você ouve um estouro e treme por dentro."
C. afirma que tem clientes ricos e pede para que seu nome não seja revelado porque diz acreditar que que eles não abririam suas casas e computadores para ele se soubessem que ele mora em uma favela.
"As pessoas ainda nos veem com maus olhos", diz. "Durante muito tempo a própria comunidade exportou uma imagem negativa, e é difícil para as pessoas de fora não terem essa visão ao olhar para ela."

Estigma
Apesar do sucesso, até agora, do trabalho das UPPs, o sociólogo Luiz Antonio Machado, professor das universidades Estadual e Federal do Rio de Janeiro (Uerj e UFRJ), concorda que há um estigma em relação aos moradores das favelas. Segundo ele, isso se deve em parte ao fato de a presença do Estado se dar de modo "perverso" nessas comunidades de uma maneira geral.
Para Machado, "não há uma ausência do poder público" em comunidades que ainda não contam com uma UPP, o que há é uma presença que reforça a desigualdade social, com serviços de má qualidade, instituições que não funcionam e uma estrutura conivente com o tráfico.
"Essa modalidade de presença permite o funcionamento do tráfico e acaba por criminalizar e estigmatizar todos os moradores das favelas, porque eles são vistos como bandidos ou coniventes com os bandidos", afirma o sociólogo.
"As pessoas têm medo de favelado. Isso não é algo refletido", acrescenta. "É algo sentido, vivido, na cidade."
Também moradora da Babilônia, Nívea Mendes diz que "o preconceito sempre existiu", mas afirma que os moradores estão superando esse problema.
"A gente ficava com vergonha dessa violência, de as pessoas acharem que a gente também é marginal, como se toda pessoa que morasse na comunidade fosse bandido", afirma Mendes, que é coordenadora da ONG CDI Comunidade Dignitá na favela.
"Agora a gente fica menos receoso de falar onde mora", completa, referindo-se à nova realidade, com o policiamento permanente.

Retorno
C. havia deixado o morro da Babilônia, com a mulher e os dois filhos, em 2008, por causa da violência. O estopim veio quando, saindo para trabalhar, passou por um traficante armado que deixou a arma disparar. "Por pouco não fui atingido", diz.
"Os traficantes chegaram com armas pesadas, daquelas de furar caminhão blindado. Era um inferno", lembra o técnico de informática.
"Eu saía de casa com meus filhos e tínhamos que passar por cima de armas e granadas", acrescenta. "Eles ficavam no meio da rua fazendo a limpeza das armas enquanto enrolavam maconha."
A família morou um tempo com parentes na Barra e depois no bairro da Glória, mas voltou para a favela em agosto, pouco mais de um ano após a chegada da UPP Babilônia-Chapéu Mangueira.
C. se diz aliviado por não ter mais que planejar a disposição das camas nos cômodos de casa, calculando os ângulos menos propícios à entrada de uma bala perdida.
"Antes, não dava para fazer planos, eu não pensava em fazer melhoria nenhuma", afirma. "Hoje em dia dá para pensar em ajeitar a casa para ficar bonitinha, comprar um carro zero, melhorar o padrão de vida. Agora tem condições de crescer."
O sociólogo Luiz Antonio Machado reconhece os benefícios surgidos após a instalação das UPPs, mas afirma que - "independentemente de ser bom ou ruim" - o programa continua sendo um mecanismo de "dualização" da cidade.
"É o lugar das favelas no sistema de sociabilidade da cidade que está sendo atacado pelas UPPs. Programando de forma diferenciada a atividade policial, estamos dualizando a cidade", afirma.
"Estamos produzindo dois tipos de cidadania. Isso é inapelável."

Júlia Dias Carneiro


BBC Brasil

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