domingo, 7 de março de 2010

Alcoolismo no futebol

Consumo de álcool entre jovens de 12 a 17 anos cresce e assusta
Talentoso, bambambã na área onde mora, o garoto se depara com um mundo até então longe de seu alcance. Dinheiro, as mulheres mais bonitas, carrão de luxo... No convívio, surge a cerveja com caráter social. Vira hábito, entra na agenda pré ou pós-treinos e as carreiras secam na medida das garrafas e tulipas. Sonho torna-se pesadelo, investimento vira prejuízo. A partir de hoje, o Jogo Extra relata os efeitos do álcool - o drama de quem viu a "saideira" ser a própria carreira, os riscos para a saúde, a incidência cada vez maior já nas divisões de base, a luta pela prevenção, o rótulo de jogadores, o drama de craques. O que era o início do fim, hoje é o fim no início.
- Conheci um lado do mundo que me fez pirar. Saí do chão, bebi demais. O rendimento caiu, perdi espaço e acabei em clube pequeno. Se arrependimento matasse... - disse Y, que foi profissional do Vasco (não quer se identificar), e ainda desfila pelos porões do futebol carioca.
A relação álcool-futebol é das antigas - até tida como romântica -, mas o alarmante é a incidência do uso atualmente entre os jovens, diante de um esporte de alto rendimento, cada vez mais profissional. Não há estatística sobre os usuários no futebol, embora os relatos de casos se multipliquem. Mas dados oficiais do Ministério da Saúde mostram que a iniciação acontece aos 12 anos. Mais do que isso, o percentual de jovens entre 12 e 17 anos que bebem vem aumentando: 54,3%, o que antes era 48,3%. Desses, evolui também o índice de dependentes, de 11,2% a 12,3%.
- No Brasil, se compra álcool em qualquer lugar. É preciso acompanhamento com o jovem. O futebol é uma profissão estressante. O garoto fica longe da família e degringola para o uso - adverte a médica psiquiátrica Camila Silveira, coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool.
Os clubes grandes montam um aparato para monitorar os jovens talentos, com psicólogos, médicos, assistência social... Vigilância para verificar desvios de conduta, excessos, noites em claro, queda no rendimento, com atenção na idade entre juvenil e juniores - período crítico. Detectado o problema, nasce a negação. Característica de quem bebe além da conta, ainda mais sendo jovem, é não ouvir conselhos e negar:
- A cerveja traduz a convivência social do futebol. Isso acontece hoje aos 17 anos. Uns conseguem entrar e sair. Outros, não. Aí, a vida útil é reduzida - analisa Paulo Angioni, gerente de futebol do Vasco.

17, idade de risco
Para o Ministério da Saúde, depois dos 17 anos, os jovens passam a beber mais. No mundo do futebol, ela é a idade de risco. Momento em que os garotos passam a ter um contrato mais longo, as cifras aumentam e o convívio com os profissionais vira realidade, conhecendo um mundo antes irreal.
- Existe o glamour do drinque, os amigos arrastam. É preciso cuidado. O troco vem depois - alerta Alfredo Sampaio, presidente licenciado do sindicatos dos atletas profissionais.

São Paulo, clube referência, não dá uma terceira chance
A prevenção ao Alcoolismo é também uma defesa ao alto investimento na formação de seus atletas. Atualmente, um garoto que vai do mirim aos juniores custa, no mínimo, R$52 mil aos cofres do clube diretamente, sem contar despesas indiretas - concentração, alimentação, tratamentos...
Referência de reabilitação de jogadores, casos de Adriano e Carlos Alberto, o São Paulo dá estrutura e exige disciplina nas divisões de base. Os garotos são acompanhados desde quando ingressam no Morumbi, com estudo do histórico familiar, acompanhamento psicológico... No primeiro escorregão, o alerta. Na reincidência, o olho da rua.
- O São Paulo faz esse acompanhamento desde cedo. Mas a partir do momento em que o atleta reincide ou não evolui, o São Paulo não cria o monstro, se desfaz logo. O investimento é alto - afirma o superintendente de futebol, Marco Aurélio Cunha.
Para não expor aqueles que extrapolam e jogam suas carreiras no ralo ou até venceram a bebedeira, falar de álcool é um tabu. Supervisor de futebol renomado, com experiência vasta, Isaías Tinoco reconhece o problema, mas preserva os jogadores.
- Já indiquei jogadores ao AA (Alcoólicos Anônimos). É uma coisa complicada - limita-se a dizer.

Gerente de futebol, com formação em psicologia, Paulo Angioni, do Vasco, lembra que futebol e cerveja têm ligação história e que, com anos de convivência, consegue facilmente detectar os desvios dos jogadores.
- Sinceramente, é visível. O comportamento se modifica no dia-a-dia. Quando ingresso no profissional, a primeira atitude é humildade. Depois, para se conceituar entre os companheiros e mostrar que não é mais menino, vem a relação com a bebida.

O drible que faltou a Garrincha
Um dos maiores craques da história do futebol mundial, o melhor driblador de todos os tempos, Garrincha perdeu o jogo para o alcoolismo. No dia 20 de janeiro de 1983, Manoel Francisco dos Santos, o Mané, faleceu em Pau Grande, aos 49 anos. Era uma época em que a bebida atingia os jogadores do meio para o final da carreira.
Devido ao alcoolismo, Garrincha enfrentou diversos problemas: tentativas de suicídio, acidentes de automóvel e dezenas de internações em clínicas. No final da carreira, se entregou de vez à bebida. Pai de 13 filhos em três casamentos, Mané é um mito cercado de lendas.
Num dos relatos, ele teria aproveitado a viagem de Elza Soares para dar dignidade a dois alcoólatras que ficavam no bar da esquina de sua casa: Valdir e Wilson. Ofereceu trabalho a eles com a promessa de que pagaria três cervejas no fim. Era para provar aos dois que tinham condições de trabalhar. Como foi treinar no Botafogo, proibiu aos empregados da casa de dar cerveja à dupla. Na volta, cadê eles? Beberam o desodorante e se foram. Para a tristeza e desolação de Garrincha.


Jogo Extra

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