segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Violação masculina é a nova atrocidade na República Democrática do Congo


Agentes humanitários têm dificuldades em explicar a explosão nos casos. ONU já considera o Congo Oriental a capital mundial do estupro.

Eram cerca de onze da noite quando homens armados invadiram a cabana de Kazungu Ziwa, colocaram um facão no seu pescoço e abaixaram sua calça com força. Ziwa é um homem pequeno, tem cerca de 1,40m de altura. Ele tentou reagir, mas contou ter sido rapidamente vencido. "Eles me violaram", contou. "Foi horrível, fisicamente falando. Fiquei tonto. Meus pensamentos foram embora". Durante anos, as colinas com densas florestas e os lagos cristalinos e profundos da República Democrática do Congo oriental têm sido um poço de atrocidades. Agora, ao que parece, há outro problema preocupante: homens que violam homens. Segundo representantes da Oxfam, da Human Rights Watch e das Nações Unidas, além de várias organizações de ajuda humanitárias congolesas, o número de homens que sofrem ataques aumentou acentuadamente nos últimos meses, uma consequência das operações militares conjuntas Congo-Ruanda contra rebeldes que realizam atos de violência sem limites contra civis. Agentes humanitários têm dificuldades em explicar a explosão repentina nos casos de violação de homens. A melhor resposta, dizem eles, é que a violência sexual contra homens é mais uma forma encontrada pelos grupos armados de humilhar e desmoralizar comunidades congolesas, subjugando-as.

Histórico de violência
As Nações Unidas já consideram o Congo Oriental a capital mundial do estupro. Centenas de milhares de mulheres foram sexualmente atacadas pelos vários grupos armados que ocupam essas colinas. Agora, essa área está atravessando um dos períodos mais sangrentos em anos. As operações militares conjuntas começaram em janeiro entre Ruanda e Congo, vizinhos estilo Davi e Golias que até recentemente eram inimigos mortais, deveriam acabar com o problema dos rebeldes assassinos ao longo das fronteiras e dar início a uma nova era de cooperação e paz. As esperanças foram às alturas após a rápida captura de um general renegado que tinha derrotado tropas governamentais e ameaçado marchar por todo o país.
No entanto, organizações de ajuda humanitária afirmam que as manobras militares provocaram terríveis ataques de vingança, com mais de 500 mil pessoas deslocadas de suas casas, dezenas de vilas queimadas e centenas de moradores massacrados, incluindo crianças pequenas, que eram lançadas ao fogo. A culpa não é só dos rebeldes. Segundo grupos de direitos humanos, soldados do Exército congolês estão executando civis, estuprando mulheres e recrutando moradores de vilas para carregar seus alimentos, munições e equipamentos pela selva. Geralmente, essa é uma caminhada mortal através de uma das paisagens tropicais mais incríveis da África – também cenário de uma guerra devastadora e complicada que dura mais de uma década. "Da perspectiva humanitária, as operações conjuntas são desastrosas", disse Anneke Van Woudenberg, pesquisadora da organização Human Rights Watch. Os casos de violações de homens se estendem por centenas de quilômetros, e possivelmente incluem centenas de vítimas. A Ordem dos Advogados Americanos, que administra uma clínica de violência sexual em Goma, disse que mais de 10% dos casos atendidos em junho eram de homens. Brandi Walker, agente humanitário do hospital Panzi, na vizinha Bukavu, disse: "Em vários lugares aonde vamos, as pessoas comentam que também os homens estão sendo violentados". Entretanto, ninguém sabe exatamente quantos estão sofrendo esse tipo de abuso. Os homens daqui, como em todos os lugares, relutam em se abrir. Vários homens que o fizeram afirmaram terem sido instantaneamente rejeitados pela comunidade – tornando-se figuras solitárias e ridicularizadas. Desde que foi estuprado, há várias semanas, Ziwa, 53 anos, não tem demonstrado muito interesse em praticar veterinária, sua atividade há anos. Ele manca (sua perna esquerda foi esmagada no ataque), usando uma bata branca de laboratório, com a palavra "veterinário" escrita de caneta vermelha, carregando algumas pílulas para cachorros e ovelhas. "Só de pensar no que aconteceu me deixa cansado", disse ele. O mesmo ocorre com Tupapo Mukuli, que disse ter sido imobilizado e violentado por vários homens numa plantação de mandioca, há sete meses. Mukuli é o único homem na ala de estupros do hospital Panzi, que está cheio de mulheres em recuperação de ferimentos relacionados ao ataque sexual. Muitas tricotam roupas e tecem cestas para ganhar algum dinheiro, enquanto seu corpo se restabelece. Porém, Mukuli fica de fora. "Não sei fazer cestas", disse ele. Assim, ele passa o dia sentado num banco, sozinho.

Do topo esquerdo, em sentido horário: Kazungu Ziwa, Shabni Lufuno Ngabu Bita e Matata Badoda, todos fotografados em Goma (Foto: Jehad Nga/The New York Times)

Recuperação
Os casos de violação de homens ainda representam apenas uma pequena fração dos crimes cometidos contra as mulheres. Contudo, para os homens envolvidos, dizem agentes humanitários, a superação é mais difícil. "A identidade do homem está muito relacionada ao poder e ao controle", disse Walker. Num lugar onde a homossexualidade é um grande tabu, a violência sexual carrega uma dose extra de vergonha. "Riem de mim", disse Mukuli. "As pessoas da minha vila dizem: 'Você não é mais homem. Aqueles homens do mato transformaram você na esposa deles'."
Agentes de ajuda humanitária afirmam que a humilhação é muitas vezes tão severa que os homens vítimas de violação só se pronunciam se tiverem um problema de saúde urgente, como inchaço abdominal ou sangramento contínuo. Às vezes, nem mesmo isso é suficiente para que eles falem. Van Woudenberg disse que dois homens cujos pênis foram fortemente amarrados com uma corda morreram alguns dias depois, pois ambos estavam envergonhados demais para pedir ajuda. As castrações também parecem estar aumentando: mais homens feridos aparecem em grandes hospitais.

Denúncias
No ano passado, a epidemia de estupros do Congo parecia estar se acalmando um pouco, com menos casos relatados e a prisão de alguns estupradores. Porém, hoje, aquela pequena camada de ordem e lei foi aparentemente removida. Segundo o relato de moradores de vilas, está aberta a temporada de caça a civis. Muhindo Mwamurabagiro, uma mulher alta e graciosa com braços longos e fortes, relatou o estupro sofrido. Ela caminhava em direção ao mercado com amigas, quando foram repentinamente cercadas por um grupo de homens nus. "Eles nos pegaram pelo pescoço, nos jogaram no chão e nos estupraram", disse ela. Pior, disse ela, um dos estupradores era de sua própria vila. "Eu gritei: 'Eu conheço você! Como pode fazer isso?'" Uma mãe contou que um representante de paz das Nações Unidas violou seu filho de 12 anos. Um porta-voz da ONU disse não ter sido informado sobre o caso específico, mas confirmou a existência de várias novas denúncias de abuso sexual contra representantes de paz no Congo, e que uma equipe foi enviada no final de julho para investigar. Profissionais de saúde do país estão ficando irritados. Muitos defendem uma solução política, não militar, e afirmam que forças ocidentais deveriam colocar mais pressão sobre Ruanda. O país vizinho é amplamente acusado de preservar sua própria estabilidade ao manter a violência do outro lado da fronteira. "Entendo que o mundo se sinta culpado sobre o que aconteceu em Ruanda, em 1994", disse Denis Mukwege, principal médico do hospital Panzi, referindo-se ao genocídio ocorrido no país. "Mas será que o mundo também não deveria se sentir culpado pelo que acontece no Congo hoje?"



G1

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